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quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

História da Literatura Brasileira (Século XVIII)


O Crescimento Literário

O início do século XVIII e seu escoar de eventos importantíssimos é notável em praticamente todas as localidades do mundo Ocidental. Dentro da Europa temos mudanças políticas, religiosas e filosóficas muito profundas. América do Norte não foge do termo político, em sua independência, fora a atividade local de seus habitantes que conquistou uma junção entre as novas modalidades filosóficas com o tradicionalismo moral e religioso.

Com o Brasil também não foi tão diferente. Obtêm-se, como noutro contexto, sólidas personificações literárias e nacionais que já foram alvorecidas no século anterior, aglomerada em inovações intelectuais decorridas da Corte Portuguesa que ao longo da prática brilhou em aperfeiçoamento. Mudanças, estas, que também evidenciam de que a Literatura brasileira, enfim, começava a enunciar a própria alma do indivíduo, sua mentalidade, sua visão de mundo. Para podermos determinar tal evolução, vale enunciar à prioristicamente uma divisão de duas metades nesse século em questão; O primeiro momento entre 1700 até 1750 e o segundo entre 1750 até 1830.

O Primeiro Momento

O primeiro momento está marcado por uma série de episódios econômicos, sociais e políticos em que sua expressão para o todo social entra em complicações; dentro delas, pode-se perceber uma altíssima relevância que os escritores optaram a realçar. Diferentemente dos séculos anteriores, no qual apenas cronistas, pregadores e poetas exteriorizavam literariamente, agora se têm uma concentração maior em outra modalidade de suas atividades; os estadistas e historiadores propriamente ditos entraram em cena.

Com isso, há uma formação de sociedades literárias e tradições intelectuais que já não são bem as mesmas que produziram seus antecessores; o que, não se pode pensar, que o gongorismo (excesso de ornatos e com linguagem rebuscada, obscura) deixou de existir. Na região da Bahia, por exemplo, permaneceu-se tal estilo ao mesmo tempo em que agravou versejadores latinos, dramatistas, historiadores, etc, sem esquecer, também, que o sentimento nacional – ou o amor à pátria – foram uma das características da tradição intelectual que fora aproveitada e aprofundada no Nordeste. E através de novas academias, o anseio de crescimento vigorava – às vezes sem sucesso e reconhecimento externo.

A Academia dos Esquecidos foi uma das primeiras que lograram a tentativa de desenvolvimento. O próprio nome, “esquecido”, vem do propósito de lembrar à Metrópole, em cujas arcádias não tiveram entrada, que havia ali quem se interessasse pelas “coisas do espírito”.

Não tão esquecida quanto parece afinal que os críticos foram muito rígidos depositando uma atenção notável, é verdade. Não obstante é preciso relevar algumas coisas. As documentações sobre a Academia dos Esquecidos são de difícil acesso. Dos pouquíssimos escritos sobrados, a maioria é fútil e que realmente compromete o talento e o gosto dos escritores daquele tempo. Assim como Silvio Romero lembra:

                  “A academia dos Esquecidos da Bahia, a dos Felizes do Rio (de Janeiro), e mais tarde a dos Seletos (também do Rio), a dos Renascidos (Bahia) e a Arcádia Ultramarina (Rio), são denunciadoras de muita vivacidade intelectual, muito desejo de aprender e trabalhar, por parte dos colonos brasileiros [...] E se é certo que os seus escritos não podem ser citados como prova de alto aproveitamento, o que então se praticava na metrópole não era de muito melhor quilate, e isto é o principal”. (p. 386).

José Veríssimo escreveu, em História da Literatura Brasileira que “apesar da origem oficial, e de ser um arremedo, havia porventura nelas um sentimento de emulação com a Metrópole, e, portanto um primeiro e leve sintoma de espírito local de independência” – apesar de que, naquela época, ainda não se falasse em independência. Fundada em 1724, a Academia dos Esquecidos sob o patrocínio do 1° Conde de Sabugosa, Vasco César de Meneses, pertenceram aos principais escritores da época, como Sebastião da Rocha Pita, João Mendes da Silva (pai de Antônio José) e os irmãos Gusmão (Bartolomeu Lourenço Gusmão e Alexandre de Gusmão). A academia reuniu-se pela última vez em fevereiro de 1725.

Rocha Pita, nascido em 1660, na Bahia, formou-se em cânones pela Universidade de Coimbra. Ao voltar para a terra de nascença, tem como prioridade tomar por matéria geral dos seus estudos a história brasileira, resultando numa obra chamada “História da América Portuguesa”. Toda influenciada pelas aspirações da Academia dos Esquecidos. A importância historiográfica e literária dessa obra, não se dá somente pela estrutura da escrita ou o tempo em que foi publicada – a última como critérios históricos. Mas, também, através do livro de Rocha Pita pode-se perceber um grande afeto com a terra natal, mesmo sabendo que a obra, razoavelmente, demonstra uma fidelidade à Metrópole. Daí, sua visão nacional e patriótica aflorava-se, mesmo que minimamente. Pequenos trechos apresentam isso:

                  “Em nenhuma outra região se mostra o céu mais sereno, nem madruga mais bela a aurora; o sol em nenhum outro hemisfério tem os raios mais dourados, nem os reflexos noturnos nos mais brilhantes; as estrelas são as mais benignas e se mostram sempre alegres; os horizontes, ou nasça sol ou se sepulte, estão sempre claros [...] é enfim o Brasil terreal Paraíso descoberto [...]” (Rocha Pita, História da América Portuguesa).

Por muitos cantos esse trecho é citado. E com inteira razão. Afinal, tal sentença, evidencia claramente o intuito patriótico do livro. O estilo de Pita, como forma historiográfica, é bem inusitada – até mesmo para este século. As quantidades de hipérboles, otimismos, focadas em realçar literariamente a beleza das terras brasileiras e de sua nação são de certa forma exageradas. O que, por sua vez, não invalida as descrições recheadas – num sentido estritamente formal – que os historiadores usualmente realizam. Entretanto, ao elaborar poesias, deixou muitos defeitos, perante o que vemos nas documentações. A quantidade de antíteses, amplificações, tropos inchados e de prolixidades segundo alguns críticos “são insuportáveis”.

Em todo o caso, nas enumerações das grandezas brasileiras, o velho Rocha Pita somente foi ultrapassado tempos depois, pelo seu subsequente Gilberto Freyre (nos artigos seguintes, Freyre será muito mais pontuado pela sua grande importância). Deu-se influência, mesmo que indiretamente e em baixa escala, aos românticos que surgirão depois.

Posteriormente, em 1705, nasce Antônio José da Silva – provavelmente o maior antagônico encarnado do velho José Anchieta. A importância desse escritor, nesses primeiros momentos, foi de grande porte. Os três elementos que nos faz pensar em pontuá-lo dessa forma; é a sua naturalidade, a família que inoculou na alma o sentimento patriótico e a natureza de seu lirismo totalmente original. Mesmo sendo “acusado de Judaísmo” e obtendo problemas até mesmo de circulação pública, o Santo Ofício em torno de 1727 a 1737 deixou-o minimamente liberto. Nesse curto espaço de tempo, apenas conseguiu escrever comédias.

Em ter uma vida difícil, até de locomoção própria, nada impediu que Antônio José fosse um dos escritores mais estudados subsequentemente. O historiador Varnhagen, por exemplo, escreveu uma biografia do escritor, sem fazer nenhuma análise profunda, pois realçava o fato do poeta ter estudado obras de Metastásio, Molière e Ratrou sendo, como fato, “o suficiente para ser relatado”. Teófilo Braga e Ferdinand Wolf – mais dois exemplos – julgam o poeta em relação ao seu tempo. Nesses critérios, enxergam em Antônio José, uma espécie de “utopia que aconteceu”, pois, na época não havia opinião pública que pudesse penetrar num palanque para tal poeta e que, no entanto, alcançou sucesso utilizando uma linguagem informal, chula e com locuções pejorativas do idioma português. Até mesmo Machado de Assis insistiu em relembrar as imitações de Molière, feitas pelo poeta.

Destarte, não foram propriamente a faculdade de falar “asneiras” que se pode ligar o sentimento nacional com a individualidade e o campo de visão do Antônio José. O que foi capaz de conectar sua expressão nacional se trata do lirismo naturalista que o poeta conseguiu aprofundar e aperfeiçoar quase que incansavelmente por toda a sua vida. Vejamos um exemplo do puro lirismo de Antônio José:

                         “Em ti mesma considero
                         De meus males o motivo,
                         Por ti morro, por ti vivo.
                         Tu me matas, tu me alentas,
                         E contigo está meu bem...

                         Deixa, pois, que triste viva
                         Quem alegre busca a morte,
                         E verás que dessa sorte
                         Essa vida me horroriza,
                         E esta morte me convém!”.

Com isso há de pontuar uma breve reflexão. Os dois grandes personagens citados acima não são de estrita forma, meros escritores que apenas impulsionaram a apreciação pela nação. Mas, é exatamente por isso que seus ângulos de visões estavam mais aproximados daquela realidade que buscavam talvez uma espécie de verdade nacional. Nada mais do que uma solene forma de conhecer a si mesmo, para compreender o seu redor.

Vemos o primeiro momento, portanto, como uma espécie de formação mais concreta daquilo que o século anterior deu início. O crescimento literário, sentimento nacional, a expressão cativante da natureza brasileira e o enfim compartilhamento de suas próprias visões de mundo faz de Antônio José, Rocha Pita e muitos outros como Alexandre e Bartolomeu Gusmão, como os principais escritores que deram um engrandecimento ainda maior na Literatura e em todas as áreas da Escrita no Brasil.

Terminamos, aqui, aquilo que poderíamos chamar de “período colonial” (lembremos de que não se trata do termo “colônia” propriamente dita, mas apenas uma forma de guiarmo-nos para uma compreensão mais exata daquela realidade), e, enfim, o período “nacional” – altamente fortalecido pelo seu precedente nativista – surge junto com o Segundo Momento.

O Segundo Momento

Esse novo período se estende desde 1750 a 1830 – no qual aqui será pontuado somente até 1800 e posteriormente concluindo em outros artigos. historiadores da literatura acabam cometendo – em pensar a Literatura somente nas regiões nordestinas durante dois séculos e meio e em seguida esquecer-se dela a partir da Academia dos Renascidos. Tanto que, já ressaltado em artigos anteriores, há uma quantidade notável de escritores, poetas e cronistas nas regiões de São Paulo e Rio de Janeiro, praticamente desde o início da colônia.

Em todo o caso, há um vislumbre maior na mais antiga academia do Rio, a “dos Felizes” que, por consequências semelhantes a dos Esquecidos, fechou-se com apenas quatro anos de funcionamento. Sua subsequente, no quesito de substituição, surge em 1752, a dos Seletos, e last but not least’ a “Sociedade Literária”, fundada em 1786 por Silva Alvarenga. A Arcádia Ultramarina ainda é muito citada, mas sem documentações o suficiente para poder ser catalogada aqui (alguns dizem que a Sociedade Literária era a própria Arcádia Ultramarina. Suplico para que algum historiador interessado na história da literatura, especialmente sobre a Sociedade Literária, investigue isso).

A Sociedade Literária, sob patrocínio do vice-rei Luiz de Vasconcelos, foi dissolvida pelo sucessor, conde de Resende, que, escarmentado com os sucessos recentes da Inconfidência, viu naquela reunião de literatos desígnios de insubmissão. Praticamente todas as academias citadas preservam o estilo gongórico, assim como Alberto Lamego diz em sua obra Academia Brasílica dos Renascidos:

                      “[...] Espírito gongórico, que se comprazia em torneios fúteis, como o de saber qual a empresa de maior glória: celebrar Lisboa a conservação da vida de el-rei nosso Senhor na sua presença ou celebrara a Baía na sua ausência?”

Apesar de ferrenhas críticas, o segundo momento baseia-se em crescimentos e desenvolvimentos tão autônomos que até o momento nunca havia se visto algo parecido antes. Os melhores poetas (os épicos) do tempo, constituem-se na grande Escola Mineira. E esta é a grande evolução do tempo, algo que até mesmo pelos seus aspectos interiores e sociais podem e devem ser compreendidos como autossuficientes. Silvio Romero a coloca como “mais importante do que a própria Escola Baiana do século anterior”.

A respeito da Escola Mineira há uma prevalência de importância ainda maior entre 1800 – 1810, mesmo possuindo em sua essência boa parte dos conteúdos em torno de 1760 – 1790 e, por essa razão, merecidíssima de uma atenção maior, será preciso continuar no próximo artigo até como precedentes daquilo que surgiu depois.


Por: Lucas Emmanuel Plaça


segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

História da Literatura Brasileira (Século XVII)


Escola Baiana e a Literatura Brasileira propriamente dita

Este novo período, o Século XVII, está marcado por uma inclinação de acontecimentos, podendo ser verificados através da Literatura local as aspirações e os desejos da sociedade que ali se formava e que se estendem por longos períodos. Podemos até elucidar a idéia de “Literatura local”, pois é nesse exato momento na história do Brasil que se torna capaz de afirmar uma literatura nacional propriamente dita. Isto é, o surgimento de uma cultura literária formada por brasileiros de nascença, com seus traços e particularidades fundamentais para uma expressão positiva do estado emocional e intelectual. Além disso, veremos subsequentemente, o início dos embates internos que, não obstante, os sentimentos nacionais afloram-se juntos em busca de um objetivo em comum.

Cabe a assinalar, superficialmente, tal situação. O despontar do sentimento nativista, revelado nas lutas contra invasores estrangeiros – holandeses – desencadeando sua enfim expulsão de Pernambuco está muito bem retratada na obra do frei Vicente Salvador em “História do Brasil”. Segundo Capistrano de Abreu no prefácio à edição da “História do Brasil”, tal obra só tem “história” no título e em algumas particularidades abordadas, e que o livro era mais de histórias do Brasil do que de “História do Brasil”. Na obra, Vicente Salvador abarca um período de cento e vinte e sete anos (1500 – 1627) e divide-se, ao todo, em cinco livros. De todo o modo, a visão do “nacional” e a afeição entusiástica pela terra do “novo mundo”, presenteavam o enfim início de uma postura mais autêntica da literatura brasileira.

Logo, Vicente Salvador não possui somente um valor historiográfico, como também literário. Basta realçar que, por ter sido o “primeiro filho do país” que se dedicou ao gênero referido, foi também o primeiro prosador do Brasil, contendo um estilo pitoresco agradável de ler-se. Utiliza, quase sem precedentes, expressões populares que dão uma pequena amostra das leituras e visões de mundo da época. O autor, ainda, era versado na literatura latina, sagrada e profana, na literatura portuguesa e também sabia espanhol. Quando voltou de Portugal, talvez para imprimir a sua obra, travou relações com o erudito português Manuel Serevim de Faria, franqueando-lhe a sua biblioteca.

Outro nome importantíssimo desse período é o padre Manuel de Morais que, infelizmente, há uma tensão de sua naturalidade; Manuel Bandeira, por exemplo, cita-o como “natural de São Vicente o qual, ao ser expulso do Colégio Jesuíta, embarca para a Europa”; No entanto, Silvio Romero aponta-o como “natural de São Paulo”. De todo o modo, todas as fontes indicam que ele nasceu no Brasil e impulsionou crescimento da literatura, sendo isso que nos interessa.

Varnhagem em “História Geral do Brasil”, a respeito do Padre Manuel de Morais, diz:

                         “Fizera-se calvinista e se casara com mulheres desta seita, pelo que já fora queimado em estátua na Inquisição de Lisboa, no ato de 16 de Abril de 1642: apresentando-se arrependido aos restauradores de Pernambuco, e sendo por estes recomendado à corte, foi condenado a hábito perpétuo, sem remissão com fogos, e suspenso para sempre das ordens, no ato de 15 de dezembro de 1649, em que saíram condenados por judaísmo mais cinco moradores de Pernambuco.”.

De todo modo, sabe-se que escreveu uma “História da América”, a qual foi muito gabada por João de Laet; mas até hoje ainda perdida.

Esses dois primeiros autores citados intercorrem-se no contexto do crescimento do sentimento nacional. Em todos estes fatos, o aspecto “racial” pouco importava. O entrelaço de africanos, indígenas e portugueses, já se tornara uma realidade. Tal interesse, agravando a dramaticidade, expressa uma luta de duas forças antagônicas, combatentes uma à outra, podendo ser consideradas diametralmente inimigas e que, no entanto, julgavam-se aliadas e amigas contra um mal maior. Os dois grandes representantes de ambos os lados são o Padre Antônio Vieira e o poeta Gregório de Matos. E eis que surge, portanto, a Literatura Brasileira propriamente dita.

Gregório de Matos nasceu na Bahia, a 7 de abril de 1623 (Segundo Varnhagen, 1633). Batizou-se no dia 15 do mesmo mês, com o nome de João, que o prelado D. Pedro da Silva Sampaio mudou para “Gregório”. Sua família era muito rica. Seus pais possuíam fazendas e cerca de 130 escravos; viviam largamente. Feitos os primeiros estudos, seguiu o poeta para Coimbra, onde se formou em Direito.

              “Desde então fêz nome como lirista e satírico. Já nesse tempo dizia dele Belchior da Cunha Brochado: ‘Anda aqui um estudante brasileiro tão refinado na sátira, que com suas imagens e seus tropos parece que baila Momo às cançonetas de Apolo.’ Doutorado, partiu Gregório Guerra para Lisboa, onde exerceu a advocacia. Foi ali também juiz do crime e curador de órfãos. Mereceu grande fama como jurista; Com promessa de um lugar na Suplicação, quis o monarca da época enviá-lo ao Rio de Janeiro a devassar dos crimes de Salvador Correia de Sá e Benevides. O poeta rejeitou. Mais tarde decaiu das graças do soberano e retirou-se para o Brasil. Fêz viagem com Tomás Pinto Brandão, bispo da Bahia, que o levou consigo, conferindo-lhe os cargos de vigário-geral com ordens menores e tesoureiro-mor com murça de cônego. Nesse tempo passara-se também para a Bahia o Padre Vieira” (ROMERO, Silvio, em “História da Literatura Brasileira” pág, 374. Ed 6. 1960).

Com isso, há de perceber sua fortíssima importância dando a entender que Gregório de Matos é – ou deveria ser – o fundador da nossa literatura. A base da nossa é o sentimento do brasileiro, como nação à parte, como produto étnico determinado; os elementos são as tradições das três culturas difundidas sem predomínio de alguma sobre a outra; os órgãos seriam os nossos mais notáveis talentos, todos aqueles que se sentiram brasileiros.

Mas a grandeza de Gregório de Matos não para por aí. Apesar de, em sua vida pessoal ter descuidos, o poeta nunca deixou o prazer pela música, o gosto de viver próximo a quem quer que fosse. O lirismo utilizado é simples, espontâneo no fundo, e um pouco alterado pelo cultismo amaneirado da época; Como, por exemplo, nos versos de “A Morte de uma senhora”:

                        “Morreste, ninfa bela,
                         Na florente idade;
                         Nasceste para flor,
                         Como flor acabaste!

                         Viu-te a alva do berço,
                         A véspera no jaspe;
                         Mimo fôste da aurora,
                         E lástima da tarde.

                         O nácar e os alvôres
                         Da tua mocidade,
                         Foram senão mantilhas.
                         Mortalha a teus donaires.”

As sátiras – quase espelhos de sua vida – vingavam-se de tudo e de todos. Fosse contra portugueses e brasileiros, negros e mulatos, brancos que se presumiam de fidalgos, e até os indígenas não foram perdoados.

Não há muito espaço para assinalar muitas descrições de sonetos, mas de todo o modo é percebível, através dessa amostra, um belo lirismo. Naquele tempo não houve outro poeta que se avantajasse, dentre os da língua portuguesa, a Gregório de Matos. O que, não obstante, jamais impediu um contato muito próximo com outros; Manuel Botelho de Oliveira, autor de um poema descritivo intitulado “A Ilha da Maré”; Eusébio de Matos, irmão de Gregório; e os padres Antônio de Sá ficaram conhecidos – assim como disse o Silvio Romero – como o grupo chamado “A Escola Baiana”.

A Escola Baiana não se determinou, propriamente, uma Escola in lato sensu. Mas, os poetas, cronistas e oradores do grupo conseguiram formar, embora as dificuldades da influência do “meio”, uma espécie de organização literária que fortaleceu a cultura e o sentimento nacional de uma forma esplêndida.

Apesar de esse tempo proporcionar grandes autores e o surgimento da literatura brasileira propriamente dita, não foi um século – comparando-o com o anterior – de grandes e memoráveis produções. Houve pouquíssimo crescimento quantitativo e, em suas linhas cronológicas, os autores somem durante anos e só voltam depois de algum tempo. Todavia, foi um momento essencial na Literatura, que não pode ser esquecido ou jogado de lado pela ausência de alguns fatores e momentos memoráveis. Afinal essa é a conjuntura que resplandece o século posterior (XVIII) e o sentimento nacional, naquele momento, aflora-se e cresce de uma maneira jamais vista antes.


Por: Lucas Emmanuel Plaça



segunda-feira, 24 de outubro de 2016

A História e sua Gnosiologia


O objetivo deste trabalho é desvendar a gnosiologia do histórico mediante sua reciprocidade interna aos fatos, seus sentidos reais e a visão de sentido que dão os historiadores enquanto destampamos a polarização estereotipada da conduta metodológica que regeu e rege a historiografia atual, em virtude da má distinção de conceitos que acabaram se tornando figuras de linguagem em falta da investigação da própria unidade do real sentido da história, que totaliza os problemas ignorados indubitavelmente.

Conceitos Ignorados

Quando se lê uma obra historiográfica, é natural depararmo-nos com uma tremenda confusão analítica. Os fatos podem estar bem organizados sistematicamente, seguido de cronologia e explicações de funções efetivas naquele contexto. Também, assim como na maioria dos livros de história, não necessitam de uma cronologia explícita, bastando à análise sociológica ou antropológica do contexto que se segue com definições usualmente dogmáticas. Em ambos os casos há tensões que, gostaria de acreditar que fosse desatenção, mas, creio que seja desonestidade mútua dos historiadores.

A primeira delas que sempre se torna clara é a falsa proclamação da “história-problema” que se dá início no movimento da École des Annales, com Lucien Febvre e March Bloch (atento-me em iniciar com “Annales”, mas mal poderemos compreender os reais desleixos se não começarmos por eles). Peter Burke, um dos relatores – e provavelmente adepto moral ao movimento – da Escola dos Annales, dizia: "Os historiadores tradicionais pensam na história como essencialmente uma narrativa dos acontecimentos, enquanto a nova história está mais preocupada com a análise das estruturas." (BURKE, 1992, 12).

Mas, ora, e quem nos disse que para melhorarmos o aspecto historiográfico e suas funções, temos de sair de um extremo e criar outro? Para compreendermos melhor, convido o leitor a conceituarmos o significado de História e suas características internas, a fim de detalharmos a extremidade.

Coisas distintas são “Fato Histórico (na perspectiva do Cosmos como o ‘todo acontecer’) enquanto Fato Histórico”, e “Fato Histórico (no sentido de que dão os historiadores)”. Ora, algum acontecimento que têm influência, condicionamento e/ou significação para um determinado grupo específico, quer dizer que ele ultrapassa o nível primordial do indivíduo, adentrando a direção do destino que lhe aguarda. Tal pode nomeá-lo de “Histórico” e, a partir do Histórico, temos o “Historial” em seus conjuntos de fatos obtidos no tempo que tiveram sua influência, condicionamento e/ou significação sobre uma coletividade humana. Mário Ferreira dos Santos nos ajuda a compreender esta questão, através da “Morfologia da História”.

A partir disso, temos um coadjuvante essencial. O “tempo” (Fato Histórico) tem seu campo que influi naturalmente sobre outros fatos históricos (a sucessão temporal dos acontecimentos como: um dia sobrepondo-se ao outro, ou uma morte sobrepondo-se à vida, ou um condicionamento individual sobrepondo-se ao grupal). E, com isso, temos a visão histórica do mundo que se repete – por condições que possam a gerar, como a morte de indivíduos que sempre desencadeiam o mesmo efeito – e a irreversibilidade – como, por exemplo, não pode haver um segundo Sócrates, mas pode haver circunstâncias que geram um Sócrates.

Temos, agora, parte da essência da História (Sucessão, Substituição e Irreversibilidade). Podemos, com isso, distinguir Sociologia de História, a partir da inteligência humana como função de escolha, da seleção de aspectos, da recordação e produto histórico. Assim como Mário Ferreira dos Santos pontua: “A Sociologia atualiza notas que se repetem dos fatos, enquanto a História apenas atualiza as irreversíveis. O fato em unicidade não volta.” E, mesmo se dissermos que “A história se repete”, é mais sociológica do que a própria história.

Sem nenhuma complexidade, vemos que o intuito da Escola dos Annales para reter uma junção das ciências sociais já começa falido. Sem desfrutar de uma ontologia explícita que possa ser descritiva, a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia e a Geografia por dentro da História só irão adquirir uma forma extrema de “Extensidade” (Objetivação do Produto Histórico). Ora, quem enxerga a história apenas extensivamente, tende a ver mecanicamente os fatos históricos, a atualizar uma causalidade rígida e sistematizar o acontecido. E isso cai por terra toda à crítica que a Escola dos Annales faz à História Tradicional. Pois, em uma análise dialética, vemos que todas as historiografias partilham de um mesmo pressuposto, o famoso: “Vamos pensar a História”.

É para isso que devemos considerar a Morfologia da História como um precedente de princípio, uma forma conceitual. Se juntarmos a forma extensiva (contendo uma mecânica, causalidade e evidência sistemática da experiência de vida) com a forma intensiva (contendo o orgânico, temporalização e fisionomia da experiência de vida) é termos uma visão viva e orgânica da alma da sociedade em sua total complexidade, junto aos mecanismos e sistema de “causa e efeito” que implicam em seus nexos. Não obstante, é claro que a Historiografia não está apta a fazer esta junção, pois estes problemas que foram evidenciados agora são efeitos de mil outros anteriormente a eles.

E, por último, quando tentamos abrir um diálogo com outras ciências sociais – que também tem problemas – como que se pretende reduzir suas tensões e permanecer intactas? Isto é, para analisarmos um efeito “social histórico”, não podemos jamais confundir o Fato Histórico com um Fato Generalizado Social. Um absurdo monstruoso e que, não obstante, ocorre quase que inevitavelmente. Ora, as massas e a sociedade como um todo não retém poder algum. Isso é levar a história para o mesmo extremo de mecânica causal. O único poder existente está no indivíduo concreto que, mesmo que alce algum poder superior ao seu mérito, a visão de seu horizonte de ação é muito maior do que um grupo maior. Exemplo disto: “A sociedade, por acaso, descobriu/inventou a teoria da relatividade e foi contar para Albert Einstein?” não! Foi Einstein que criou a teoria, pois seu horizonte prático e teórico expandia-se infinitamente de outros indivíduos, mediante a diferenciação da esfera da razão que cada indivíduo retém em si mesmo.

É por isso que está completamente errada a proposição – às vezes até dialética – de analisar as massas, pois “elas foram os agentes da história”. Jamais. A história é um emaranhado de complexidade e apenas as grandes ações políticas, econômicas, científicas, filosóficas e até mesmo historiográficas que nos servem de espelho para compreendermos a unidade do real. Normalmente, depois desta enunciação deste que vos escreve, surge a indagação quase que inacreditável: “Então não devemos estudar sociologia ou a sociedade em um contexto histórico?”. É claro que devemos. Mas não podemos cometer o erro de optar extremos em uma historiografia, e concluir a partir de figuras de linguagem o “todo histórico”.

Por essa razão, a única busca de compreensão histórica válida de um grupo não se dá pelo seu aspecto extremo de dois polos, afinal eles sempre caem em um estereótipo político-ideológico assim como vimos com o Materialismo Histórico Dialético (Marxismo). O melhor esclarecimento análogo que podemos obter se trata da própria expressão e do movimento dos indivíduos que, por muitas vezes é mutável em tempo lento e gradativo. Por exemplo, quando Eric Voegelin realizou a “História das Idéias Políticas”, a primeira dificuldade dele foi tentar encontrar um nexo temporal entre a idéia concebida e, quando o indivíduo que a concebeu, realizou-a. Trata-se, portanto, de utilizar a Morfologia da História novamente. A extensidade e a intensidade para, primeiro, entrarmos na alma do indivíduo e só assim compreender razões, nexos e efeitos que geraram suas produções.

É por isso que não podemos procurar, na história, alguma forma de captá-la por uma posição intermédia – tanto que até dentro da filosofia isso é inválido – mas, tentemos, a partir de agora, uma constatação das diferenças para uma concepção superior.

Para podermos catalogar uma Classificação da História, primordialmente temos que relembrar que a Intensidade e Extensividade se complementam e, a partir delas, quando podemos enxergar esta Morfologia da História, percebemos também sua essência irreversível que pressupõe o estudo e diferenciação da sociologia e, somente a partir de todas essas características podemos adentrar a história como tal. Para isso, mostremos a seguir que, podemos ver o mundo como um “produto” (vir-a-ser, tornar-se) e “produzir-se”.

Tudo aquilo que já aconteceu, ou seja, o que restou da História no espaço – seja geográfico, efeito nos indivíduos, monumentos, documentos, etc. – pode-se chamar de produto. Já a História, por questões contemporâneas, é o “produzir-se”, pois, é dinâmica no tempo. Então, nós, indivíduos, somos históricos, porque vemos o mundo como um produzir-se, ao contrário do homem greco-romano perante a nossa visão. Então, tudo aquilo que aconteceu, sendo produto (ou, por exemplo, os gregos), e tudo aquilo que está acontecendo e que, no entanto, produz uma história (como nós, por exemplo), é a base para classificarmos a história.

Há, no mínimo, duas classificações possíveis:
  1. O mundo da Natureza.
  2. O mundo da Cultura.
Dentro do mundo natural, pode ser fornecida a nós a ciência genérica, ou uma consideração pelo lado orgânico e inorgânico. Se o consideramos historicamente, temos a Bio-historiologia (que será a ciência que tem como objeto o “produto histórico-biológico”), e sua diferenciação da Fisio-historiologia (como objeto de estudo o “produto histórico-físico”). Nesta relação, vemos uma semelhança muito grande com a Antropologia que liga o ser humano com natureza e a cultura.

O mundo cultural, diferentemente, expressa a História Humana propriamente dita, como se fosse à Antropo-historiologia, a qual estudaria a vida humana apenas como história em seu desenvolvimento. Dentro dela, podemos catalogar o que foi dito mais acima, o que “há coisas que se repetem e outras completamente irreversíveis”. No entanto, temos ainda mais classificações a se fazer, pois, dentro dessas duas, há uma multidão de histórias e diferenças de classificações:

(1) Cultura - História Interpretativa, Analógica, Metafísica, Sistemática, Descritiva como a classe “Irrepetível”. Teríamos, na classe que se repete a Ecologia, Etnologia, Economia Ética e Sociologia.

(2) Natural – Sociologia Real, Ciências, Fisio-historiologia, Biologia, Zoologia, etc.

O leitor tem a oportunidade de estar se perguntando agora: “O que fazem os historiadores, perante toda esta complexidade sendo que, como visto mais acima, nem mesmo o conceito mais fundamental da História – como irreversibilidade – é utilizado?”. A resposta é dificílima visto que há fragmentações em diversas metodologias da história. Apesar disso, eu arriscaria o seguinte: “Os historiadores, a maioria deles, estão despreocupados com a complexidade do histórico e historial, pois, acreditam que uma metodologia é capaz de sintetizar os produtos e todas as classificações possíveis. E, aqueles que não acreditam nisso, sabendo que a história é complexa e que, no entanto, não há o mínimo esforço de reduzir estas tensões, são desonestos”.

Intuição Historial

O raciocínio lógico tem a sua validade, mas nunca a sua veracidade. A lógica é um conjunto de regras que permite verificar a validade de um discurso, se ele é coerente ou não. O que temos, então, é a sua validade ou invalidade. A pergunta que nos ajudará a compreender o fenômeno a seguir é: Há conhecimento intuitivo? Intuição significa a percepção imediata de uma presença e que, no entanto, não necessita ter uma presença física ou moldável no mundo exterior. Visto isso, o fundamento do conhecimento racional é uma percepção intuitiva e mediata de uma presença. Mesmo que tenhamos um objeto puramente mental, ele ainda contém uma identidade ou fato de que uma premissa/proposição está contida numa presença.

Com isso podemos sintetizar as informações anteriores em alguns aspectos. Lembremo-nos da Morfologia da História que se aglomera nos conceitos Extensidade e Intensidade, de produto (como o que restou da história) e o produzir-se (como o que age contemporaneamente no tempo) desde dentro da Classificação da História.

Na Extensidade, se consideramos tudo dentro da alternativa espacial, veremos apenas as generalidades, o geral, o que se repete o que é espacial, e então, procederemos à explicação acima, com a Lógica Formal que se remete aos fatos. Já na Intensidade, precisaremos de uma dialética “intensista”, capaz de considerar os fatos em sua heterogeneidade. Em conclusão, o que é extensivo (espacializado) está condicionado à Lógica Formal, expressão do seu princípio de identidade. O que é intensivo (qualitativo) está condicionado a uma escala em graus, que não nos mostra o todo generalizado.

Para enxergarmos a história, necessitamos da averiguação de fontes primárias e secundárias, juntamente aos processos institucionais, religioso, a economia e seus dados e entre outros que, já formados de seu contexto histórico podemos reter um grande repertório de informações capazes de evidenciar suas conjunturas. O que, na verdade, não acontece com frequência é a investigação lógica extensiva e intensiva. Mas, afinal, se o conceito de história implica em sua irreversibilidade e logo teria de ter alguma lógica, por que a averiguação, o realce e o embate de fontes contrariantes, dão poder ao historiador – que já não tem formação intelectual suficiente para enxergar a lógica dos fatos – a utilizar uma metodologia que já implica na própria separação dos nexos historiais?

Isso acontece devido ao louvor e aplicação voluntária da metodocracia. Sendo incapazes de alçar e compreender conceitos elementares de sua própria formação, incorporar uma metodologia que efetive e facilite todo o trabalho analítico, é devidamente reconfortante para o historiador. E é exatamente por isso que temos, em muitas obras historiográficas, visões estereotipadas marxistas que cultuam a definir o objeto histórico, isto é – eufemisticamente – deturpando e mentindo descaradamente diante dos fatos.

Tal reverência, não atua na própria estrutura dos fatos. Eles nos evidenciam algo. A função do historiador não se trata de fazer alguma história, mas de conta-la e averiguar as fontes contrariantes sem a procura de uma solução prática que alguma metodologia ofereça. A razão, portanto, não está presente em sua base, mas na sua verdadeira conclusão. Não há como pensarmos objetos históricos inexistentes. Só existe essa possibilidade quando sabemos da existência factual de tal documento que nos evidencia o que aconteceu, seja ele pouco ou muito relevante, e isso já se torna o contrário da relatividade proposta pelas metodologias. Afinal, o objeto histórico já é essencialmente uma história, que por sua vez reflete acontecimentos, modos, costumes e mentalidades que mesmo existindo alguma outra fonte que aponte o contrário, alguma coisa aconteceu com aquilo e é objetivamente irrevogável.

Distinção Flexível dos Conceitos dos Fatos

Na busca de uma ontologia do histórico podemos apontar diversas coisas que o definem em sua base estrutural. Em todo fato que acontece, há a presença do passado. O acontecer é real. O ser histórico não é um mero nada, é objeto da disciplina que lhe é correspondente: A História in latu sensu. A princípio, essas caracterizações podem nos parecer tão óbvias que nem precisaria ser ditas. No entanto, se não obtivermos estas definições em mente, na explicação seguinte, provavelmente, o leitor perderá a atenção sem a opção de compreender o conceito.

A definição de “Sociedade” pode nos remeter a diversas interpretações. Seja uma espécie de generalização de conjunto dos interesses semelhantes, a língua no qual um indivíduo se comunica com o outro, ou até mesmo os modos de costumes que tal sociedade pode empenhar. Não obstante, talvez devêssemos analisar a definição de “sociedade” perante a história para que, futuramente, alguém possa empenhar algum estudo mais profundo a respeito.

Nós sabemos que a definição mais rasa do conceito de sociedade se dá pela generalização de conjunto dos interesses semelhantes de determinados indivíduos. Neste princípio, podemos perceber de que em tal conceito não se retém um objeto acuradamente descrito que possa nos evidenciar o que, de fato, é uma sociedade. Visto que há uma generalização, isso quer dizer que nos evidencia um aspecto quantitativo de determinado aspecto humano, que possa tender para mais ou para menos.

Mas, então, como percebemos a sociedade se ela, em sua estrutura íntima, não nos evidencia algum conceito científico-descritivo? Através da intuição em que a percebemos e, em seguida, tentamos produzir algum “conhecimento lógico” a respeito do objeto. O que, no entanto, não nos remete a nada, pois, se dissermos como pressuposto lógico: “Se é Brasileiro, logo ele fala Português”, e em seguida “Se fala Português, logo ele é Brasileiro”, o non-sequitur acontece pela própria generalização e por dentro de sua deficiência lógica. Isso acontece quase que indefinidamente nos estudos históricos, fazendo com que a simplicidade das análises se torne a ponta de lança para a interpretação de conjunto.

E, mesmo dentro da lógica, se tentamos compreender alguma “entidade social” caímos na impossibilidade de alcançar o objeto. Por exemplo: “Aquele grupo de indivíduos está falando Português, logo são Brasileiros”. Se aparecer um terceiro indivíduo e enunciar: “Prove!” você estará perdido em sua análise.

Fora isso, em todas as tentativas, como a de György Lukács – visto no capítulo da Historiografia Marxista – em buscar uma “ontologia do ser social”, apenas atestam a insuficiência metodológica e lógica de uma análise da sociedade. Ora, é possível que exista algum “Ser Social” propriamente dito? Ou seja, dentro desta indagação, existe algum indivíduo que somente se constitua “indivíduo” quando estiver dentro da sociedade? Ou, a sociedade lhe confere alguma essência/alma? Ou, a sociedade obtém uma alma própria? Se, todas essas afirmativas forem respondidas positivamente, estaremos excluindo o indivíduo por excelência e toda a sua essência e isso, filosoficamente, é a completa obtusidade.

É por isso que devemos, como historiadores, focar a história do indivíduo e não das massas. Tendo problemas na interpretação e logo forçando a subjetividade dentro da história, teremos problemas quase que infinitos quanto aos aspectos historiais. A história das ações políticas, econômicas, e filosóficas são muito mais importantes, assim como dito anteriormente. Afinal, a massa não retém poder algum, apenas o indivíduo que compreende seu poder de ação. E é por isso que a teoria de Karl Marx está completamente errada. Não é o Proletariado o agente da sociedade, ou as massas como agente da realização da história. Eles são apenas complementos e coadjuvantes dos reais acontecimentos. Relavam-se suas causas e efeitos, não como um processo de estabilização revolucionária ou agente de alguma ação, mas apenas como os "pormenores" da ação do indivíduo por excelência.

Mediante estas informações, creio que, se aprofundarmos nos indivíduos da história, aqueles que desempenharam reais mudanças e evoluções sem, é claro, excluirmos o corpo social de ação, as conclusões e os resultados obtidos serão muito mais gratificantes e importantes.


Por: Lucas Emmanuel Plaça


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