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quinta-feira, 30 de março de 2017

A Traquinagem de um Sociólogo Universitário – ou, um coprófago sinistro


Em toda a vida de estudos, é evidente que em um determinado momento o indivíduo pode extrapolar o limite da utilização de conceitos prontos e estereotipados que, por sua vez, demonstra uma perturbação da própria mente quanto ao seu alcance de conhecimento; e que também demonstra, por fim, a incapacidade de alçar um passo à frente, forçando-o a encarar a realidade no mesmo clichê masturbado de escolas de pensamento ideológico ou ter de realizar uma autoanálise com a finalidade de enxergar suas contradições. 

Esta última possibilidade já é descartada nos primeiros momentos de palpitação nervosa, ao deparar-se com outra modalidade, servindo como o famoso fenômeno da racionalização – que os psicólogos tanto falam – concomitante para com a resposta emocional a figuras de linguagem. Resta, única e exclusivamente, a mesma contínua atitude dos tagarelas e formadores de opinião – não tão recentes – que não têm nem conhecimento histórico muito menos filosófico suficiente.

Dos professores de Sociologia da educação, estes que formam as mentes dos futuros docentes e que atuam, sobretudo, nas universidades, usualmente utilizam alguns conceitos e definições científicas para afofar e aquecer um tipo de debate – dado por iniciado no final do século XIX e superestimado em meados do século XX – baseados, quase sempre, nas idéias Comtianas do Positivismo – não unicamente historiográfico de Leopold von Ranke – realizando, conjuntamente, uma espetacular exploração dos “avanços” filosóficos acadêmicos, a partir da Escola Analítica. Por uma coincidência cosmologicamente risória, este aproveitamento, esta sucção forçada de arcabouços filosóficos, foi exatamente o contrário daquilo que a sociologia positivista, dita “científica”, pregou anteriormente; lembremo-nos que dos problemas sociológicos e históricos pontuados a partir de Durkheim, por exemplo, através dos Franceses, assim como Meillet, nem sempre foram realmente problemas autênticos. O próprio Marcel Mauss, apesar de acreditar fielmente na idéia corrente de que as análises dos fenômenos sociais não poderiam dispor uma divisão -- isto é, inclusive os fenômenos espirituais seriam pura obra humana, materialmente em exaustão – ao atestar a descrição do "Homo Duplex", mostrou, conjuntamente, sua insuficiência científica, tendo de apelar a uma espécie de idéia da transcendência do indivíduo.

O que pretendo dizer com isto? Que a Sociologia (e até um pouco da História, mas esta não há espaço para pontuá-la devidamente), como matéria, repassada dentro das universidades, está falida, ultrapassada e, sobretudo, os critérios justificantes de sua utilização são os piores possíveis – dos quais, veremos mais adiante.

Vale salientar de que a distinção positivista histórica e sociológica sobre a elevação, evolução e o desenvolvimento dos conhecimentos e suas esferas, realizava a seguinte divisão: 1- “Teológico”, considerado como um dos conhecimentos mais fracos e estagnados da humanidade, justamente pela sua ligação intrínseca para com a Religião; 2- “Metafísico”, do qual, segundo Comte, “buscava um significado mais abstrato das coisas”, e “inventava conceitos” para, enfim, justificar determinadas ações; e por fim e considerado o mais importante 3- Positivo (Científico) que visa “extirpar as ideologias e as ocultações que a religião e a filosofia realizam” para, enfim, encontrar a realidade tal como ela é.

A “Sociologia como Ciência”, entendida dessa forma por vários de seus sucessores, seria, portanto, o suprassumo da consciência humana, do conhecimento e – em termos hegelianos – a “superação” e a “síntese” das outras esferas já tão enormemente ultrapassadas – isto que, no entanto, não há nada de verídico.

Uma das escolas mais importantes do pensamento historiográfico – apesar de ter uma relação muito íntima, quase “casória”, com esta modalidade positiva da sociologia – a Escola dos Annales, francesa, já tinha apontado a incongruência da perspectiva e a problemática anacrônica que, como sociologia e historiografia, o positivismo prosseguia com suas análises. Isto é, a visão “anacrônica”, nada mais é do que a extirpação da realidade historial e social, sustentada em uma visão e nos conceitos contemporâneos para sobrepor-se ao antigo, ao clássico, sobretudo às idéias predecessoras. Em um breve levantamento – do qual não há espaço para expor a coisa toda – podemos perceber algumas consequências notáveis do exemplo cabal dos estereótipos positivista-científico, resplandecidos dentro da nossa própria história; a República, por exemplo, com desdém, com uma arrogância imensurável, repartiu o Brasil em partes tão menos significativas no quesito da tradição, expondo um coeficiente de destruição política e cultural através de sistemáticas ditaduras e problemáticas econômicas em prazos tão curtos de uma só geração. Este é somente um dos exemplos que podemos citar da consequência do anacronismo puro e simples, mas é, de fato evidente, de que o único critério do qual a Sociologia positivista pode se sustentar, é na criação dos estereótipos contra o passado, e sustentando-se neles como se realmente fosse “a verdade revelada”.

Mas em matéria da metodologia, a história revela, por sua vez, mais do que sua insuficiência dilatada. Existe, assim como veremos uma descrição inusitada e muito interessante de um processo histórico intitulado de “Falso Divórcio da Ciência e Filosofia”, do qual, vale salientar por aqui, ao menos um pouco deste, pela modéstia dos srs. Professores e Sociólogos.

Em uma simples linha temporal a humanidade já em 1300-1400 na Europa, obteve um avanço surpreendente das tecnologias como base fundamental e alavancando o avanço da ciência. Desde Bacon e Galileu, Newton e Leibniz, têm-se uma penca de discussões acerca do método experimental, formada pelas qualidades primárias da “figura, extensão, movimento e número”, que serviram de A-Z, uma nova forma de linguagem compreensível dentro das próprias metodologias e dos círculos de cientistas. No entanto, o novo método não deixava de trazer consigo algumas dificuldades; o próprio Leibniz já havia notado que as “qualidades primárias” não eram suficientes para “produzir uma coisa, um ente real. Além de possuir figura, extensão, movimento e número [...] o objeto precisava também ‘ser’ algo, possuir caracteres definidores internos que o diferenciassem, como gênero e espécie”. Em suma, a Ciência necessitava da própria Filosofia para resolver o problema; necessitava, por exemplo, daquilo que a escola aristotélica chamava de “Forma Inteligível”. No entanto, alavancando mais problemas, houve mais atenções voltadas ao método experimental por si mesmo – do qual, e por uma leva incontável de fatores, fizeram surgir o fenomenismo, a “bifurcação cartesiana” e aquilo que Olavo de Carvalho chama de Metodocracia” – do que ao próprio estatuto ontológico das coisas. Há de pensar que, neste momento, produzindo-se a suposta “divisão entre filosofia e ciência”, as idéias positivas da sociologia e da historiografia, por sua vez, teriam marcado o início da autossuficiência científica. Novamente, não foi isto que ocorreu.

Na passagem dos séculos, percebeu-se, em praticamente todas as áreas do conhecimento científico, mesmo levando em conta todos os amortecedores universitários produzidos pelo pensamento progressista, o choque da realidade. Max Weber, um dos maiores sociólogos do Ocidente, entendendo perfeitamente de que não poderia supor uma regra geral para todas as análises, já contabilizava – não diretamente – a insuficiência das abordagens sociológicas e históricas que, com o anacronismo exorbitante, erravam profundamente nas teorias hipnóticas dos hipotéticos futuros. Gyorgy Lukács, na tentativa de buscar uma “ontologia do ser social”; E. P. Thompson, no revisionismo marxista, e tantas outras teorias – desde a ciência política até a minuciosa ciência psicológica – evidenciaram a insuficiência de seus anteriores; quem dali fosse um bom estudioso, já poderia compreender a necessidade da “volta com a Filosofia”, um dos únicos campos necessários a dar voz e possibilidades para a ciência, podendo compreender, em concomitância, a impossibilidade de prosseguir com as idéias de uma “sociologia única e exclusivamente científica”. É um fato: Sem um objeto acuradamente descrito, já compreensível a partir das discussões filosóficas, é impossível ter uma ciência que possa progredir; a ciência histórica, por exemplo, nos últimos tempos, esteve em “processo de evolução” constante de uma forma que não está ligada senão à própria inspiração, e influência sofrida através da filosofia.

Mas, é com uma maquiagem desses fatores e de uma petulância incrédula de uma suposta “ciência”, que a sociologia universitária prossegue com suas análises completamente estereotipadas, devido aos seus princípios fundantes estarem todos marcados por defeitos inescrupulosos e negligentes no que tange a própria esfera da realidade. Um detalhe importante que deve ser registrado está na própria invalidação da premissa que a sociologia dita científica utiliza como escopo – do qual, demonstramos parcialmente agora pouco.

Com ares de superioridade, vindas de uma inconstância mental intolerável, a sociologia que lá é repassada adora fixar-se aos “elementos da sociedade” – como a Cultura, a Religião em si, os “estereótipos da nação”, e dentre outras coisas – da qual, para prosseguir com uma espécie de subversão ideológica bem prematura, faz da deturpação de conceitos e definições, ou a mera confusão obtusa, regra e obrigação moral número um do professor, a fim de encontrar um meio de criar um novo estereótipo. A idéia é – devemos reconhecer – genial para manipular a cabecinha dos alunos. Funciona da seguinte forma: Coletemos alguns elementos da sociedade, como a cultura e a “subcultura”, e ao invés de darmos a idéia de continuidade do processo elementar-historial do próprio denominador comum em que a nação se encontra – as tradições, por exemplo – inventamos um preconceito social, como se fosse evidente em todo o mundo, e criamos uma crítica estereotipada sobre o mesmo sem revelar que o fazemos.

Isso, para o leitor, deve parecer, realmente, mais um dos raciocínios metonímicos – a de enxergar coisas, causas e efeitos onde não existem – acompanhados de uma Paralaxe Cognitiva – neste caso, a de utilizar um estereótipo para criticar outro por si – que, presenciados em um debate ou em uma apresentação de uma palestra sã, deveriam ser expulsos a ponta pé, sem o direito de exclamar uma vírgula publicamente. Isto, não obstante, recheados de uma elipse argumentativa, com uma pitada de alguns conceitos científicos, soa aos ouvintes como se fosse à verdade revelada por Jesus Cristo. Não é preciso ler a obra “Imaginação Totalitária” (Razzo), para perceber do que realmente isto se trata.

O jogo linguístico torna-se uma das vias para tentar salvar uma pseudo-ciência de sua decadência e, inclusive, para manter o status de “professor-culto” acima de qualquer um que ouse contestar, ou meramente questionar, a salvação científica para as ideologias predominantes tão benevolentemente oferecida. Tudo isso, no fundo no fundo, trata-se de uma confusão que se deu por iniciado numa tentativa de sobrepor a idéia de “Cultura” e “Civilização” a um neologismo, já resolvido por Michael Bral em “Essai de Semantique (Science des significations)”; curiosamente, os dicionários franceses e portugueses contém a mesma similitude de significados de ambas as concepções. Uma confusão, um embate, por causa de um vocabulário sociológico e etnológico, que por definição, alcançam noções diferentes.

A Cultura, em contrapartida, não tem – para com estas falsas noções de definição e idéias incongruentes – a função básica de sintetizar a experiência real dos indivíduos em um denominador comum de tradições; o que é entendido, por estes, é uma espécie de “controle social” – exceto quando eles mesmos tentam fazê-lo. Aliás, a relativização da Cultura, ante o indivíduo dentro da sociedade, é uma das etapas a entrar em consenso com sua subversão, justamente para quando algum indivíduo bem intencionado evidenciar o erro sociológico, abrir portas para um refúgio metodológico para esconder sua contradição profunda. Em outras palavras, é a velha traquinagem do sociólogo – ou, o coprófago sinistro.

É o que acontece, por exemplo, quando se exclui a idéia de “indivíduo concreto” dentro de uma análise social. Um dos famosos fetiches dogmáticos que são proferidos a partir dessa modalidade da sociologia – e até no campo da história – a fim de esconder na metodologia sua real intenção, é a idéia de que “o homem é fruto do seu tempo”. Acontece que, por uma desgraçada falta de sorte, esta idéia nunca acertou suficientemente; pois, nem sempre, dentro da história, os indivíduos compactuavam com aquilo que estava proposto, ou instaurado diante de seus olhos. Um dos exemplos mais notáveis está na criação da universidade mesma, que representando inclemência e uma desordem interna imensurável, sendo-a como um dos critérios mais bem sugestivos daquele tempo, Tomás de Aquino, no entanto, mostrava-se contrário a ela em demasia. Isso sem contar outros, tão ou mais importantes da mesma “era” que não eram jamais frutos da conjuntura específica, mas, na verdade, completamente avessos a muitas coisas que ali ocorriam.

Não há espaço para expor completamente, nem mesmo explicar suficientemente, como que as estruturas sociais, as culturas e o indivíduo perante tudo isso, agem e modificam-se ao passar das décadas e dos séculos. Mas, se tem uma regra que é inegável, em todo o campo histórico e sociológico, é de que os indivíduos não são única e exclusivamente frutos de seu meio; não se pode excluir a psique, os sentimentos, as influências e as inspirações de outros tempos. Existem, sem sombra de dúvida, mais fatores históricos, simbólicos, intelectuais e culturais de outras esferas da história que podem – e são – absorvidas, interiorizadas, dentro de uma civilização, do que, uniformemente, na sociedade em critério de simplicidade. Isto é, a sociedade não é fruto dela mesma, ela tem uma história, uma continuidade; por esta razão, os indivíduos também não são fruto única e exclusivamente dela. Excluir as possibilidades de reencontro cultural, seja por uma via intelectual seja pelo próprio contato, é negligenciar um dos primeiros critérios historiais a serem estudados em sua complexidade.

Em suma, a “sociologia universitária” – ou a sociologia que passam nas universidades – nada mais é do que um fetiche, muito mal pensado, de campeões de punhetologia mental. Mas, sejamos mais compreensíveis com nossos companheiros que ali estão. Estes já não podem mais alcançar a verdade, pois, no fundo, estão marcados pela mentira. Esta é a figura mais comum dos professores universitários.


- Por: Lucas Emmanuel Plaça


quinta-feira, 16 de março de 2017

História Política Brasileira (1550 - 1572)


                                                  O Projeto Luso-Brasileiro

Por muito tempo falou-se do período Colonial – e até mesmo do Império – sem a necessidade de ter sinceridade em profundidade. De um movimento historiográfico específico, do qual não trataremos profundamente no momento, mostraram-se demasiadamente incapazes de prosseguir com as análises históricas do Brasil, nestes dois momentos excepcionais de nossa história, e que dos quais cresceram, subitamente, através de diversas formas de anacronismos[1] e inversões monstruosas. Estas, ao analisarem esses períodos com olhares tendenciosos, utilizando-se única e exclusivamente de metodologias cujos objetos históricos e de análise são os econômicos e relações de trabalho; dos quais negligenciaram profundamente os critérios intensivos de cada momento e ao glorificar o extensivo em exorbitância, mostraram, por tantas vezes, sua insuficiência generalizada.

Mas estas análises recentemente hegemônicas não foram, de maneira alguma, o único método utilizado pelos historiadores brasileiros – e até mesmo os estrangeiros. Por mais que, usualmente falando, estas estejam tomando o espaço que não podem abarcar, nem mesmo justificar esse ato suficientemente, ainda restam-se os métodos genuínos, ainda os clássicos.

Por esta razão deixo aqui uma posição clara em demasia: Ao falar do “Projeto Luso-Brasileiro”, é muito provável de que a interpretação proferida a partir da leitura do mesmo soe, para com estes marxistas, uma idéia genuinamente material, de força produtiva, ou de subversão religiosa e escravista; deixo claro, repito, não é absolutamente nada disso. Destarte, peço a não retirar conclusões precipitadas a partir dos vocábulos aqui utilizados.

Pois, se estamos em busca de resultados sérios e mais completos, porque nós devemos nos ater aos critérios unicamente materiais, quando este está altamente resplandecido na massiva maioria das obras a respeito da colônia, se nós temos tantas idéias, projetos culturais – e até espirituais – que neste momento advém de muito da política e que merece ser assimilado?[2]

Do fato que a colônia obteve um momento inescrupuloso e de ações que contemporaneamente consideraríamos imperdoáveis, é de certo modo indiscutível. Mas também é indiscutível que existiram esses fatores semelhantes em praticamente todas as civilizações, inclusive a da civilização Ocidental que aboliu, através de muito esforço e compaixão, uma série de práticas que não correspondiam para com aquilo que acreditavam. De nada adianta, ao saber disso, olhar e concluir, subversivamente, o contexto do passado. Tem de ser analisado, na tentativa de alcançar ao máximo das complexidades, o todo; jamais ater-se ante um critério repetido sei lá quantos milhões de vezes.

Com este fundamento, já estamos de encontro com as aspirações lusitanas e o que diz respeito ao Brasil, a Terra de Santa Cruz. O Brasil do qual estou falando não se trata do rompimento total das tradições e dos arcabouços morais que foram cortados a partir do período republicano. De fato, ainda há resquícios dessa tradição, mesmo que não resplandecidos desde dentro à política. Falo dessas terras diante a amplitude de visão portuguesa antropogeográfica; visão histórica diante de um produzir-se e a finalidade de um produto[3].

Qual seria a “essência” histórica do Brasil[4]? Da política, da cultura e de todas as notas mais particulares desta região que nos cerca? Só podemos encontra-la – tanto como mais adiante para a compreensão contemporânea e até mesmo ao traçar a fonte dos momentos inescrupulosos – se compreendermos à priori que o Brasil é – ou fora até um determinado instante[5] – o produto, uma continuação, um seguimento da religião Cristã (especialmente a da Católica) que está devidamente acompanhada para com a noção de Reinado e posteriormente de Império[6].
É muito fácil e rápido descrever o Brasil como um país que “aconteceu do acaso”[7]. O difícil foi, realmente, algum historiador, não necessariamente bem intencionado, mas com o simples senso de dever a entender os nexos que ligaram, por tanto tempo, a Península Ibérica e a América Latina. Em vista da Fé Cristã e da formação do Império/Reino Ibérico, em vista desses dois aspectos muito comuns da Europa e das Américas, nos permite evidenciar, e com resultados muito objetivos, um terceiro aspecto que surge mediante estes dois. Seria, é claro, o processo civilizatório que já tem modelos históricos imensamente arraigados desde o mundo antigo e medieval.

No que lhe diz respeito, isto é, sobre o processo civilizatório ocidental, levando em conta todas as características mais notáveis das quais citamos, é percebível com rapidez os prestígios da mescla que inclui, da conformidade que desenvolve e da interação cultural de tantas e diversificadas etnias e povos. Por tantas diferenciações, a Civilização Ocidental trabalha, em sua plenitude, ao abarcar povos que permaneceram nos estados aporéticos[8], que os inclui em um denominador comum de tradições, que acrescentou a esses povos novas formas de visão e de vida que, por sua vez, em seus locais de origem, poucas vezes tinham a oportunidade de saída desses estados dificultosos[9].

Não é atoa, destarte, que um dos maiores prestígios admiráveis por nações exteriores é exatamente o sentimento acolhedor do Brasil ou, em outras palavras, a de “um país hospitaleiro”. Lembremo-nos, grosso modo, de que a regra das civilizações não é única e exclusivamente as ruínas e maldades, como diria Hegel. É inegável, repito, de que tanto no Brasil como no mundo, houve dificuldades – e que por sua vez foram superadas com muito esforço.

Mas elas não seriam superadas se o regimento político e moral da sociedade fossem superficiais, uma mera sordidez, como muitos falam. E é neste aspecto, caro leitor, que peço que mantenha a atenção. As três bases, da religião cristã, do império e a civilização ocidental, não teriam melhorado a condição de vida da sociedade brasileira tempos posteriores, caso seus princípios fossem desordenados e instigados pela subversão e pela destruição; ao contrário, o que incluiu o sentimento de identidade dos povos Africanos e Indígenas junto ao dos povos Ibéricos, não foi unicamente a atração tecnológica senão, e como também, as próprias condições morais, o senso de participação das tradições e a uniformidade de valores. Isso é tão marcante em nossa história colonial, isto é, o processo étnico e cultural, que é impossível não cataloga-lo com devido respeito e integridade – mesmo alguns não sendo capazes de fazê-lo.

A colônia, enunciando-a por alto que seja, foi herdeira inicial do Cristianismo, da tradição Greco-Romana, de tantos povos mestiços e que, através desse intercâmbio cultural com a tradição europeia, os povos aqui fixados e sedentarizados encontraram um aspecto novo e civilizado que não foi possível senão por causa da formação Imperial e da religião Cristã. O Brasil foi fundado com esta concepção, abordando e unificando tradições no que tange os arcabouços morais cristãos; se não tivemos um Império no período Colonial, podemos ver seus traços históricos que caminharam para este feito; eis o Projeto Luso-Brasileiro. Nações são construídas por laços culturais, para exemplificar; povos com traços culturais muito distintos, assim quando comparamos os Ibéricos, os Indígenas e os Africanos, são praticamente impossíveis de se unificar sem arcabouços religiosos e tradições elevadas, através de identidade e a figura que os complementa; a família, os laços parentescos, por exemplo, estão representadas na figura Imperial. Este, é claro, não procurarei estender no momento. Mas, assinalo-o por ora, pois sem uma compreensão dessas raízes e desse “projeto”, será impossível compreender as conjunturas posteriores.
                                                   
                                                             O Governo-Geral

A idéia geral que está sistematizada na história das Américas, conjuntamente com a das navegações, traz um consenso de que nem sempre, nas regiões descobertas através dos exploradores, resplandeciam a mesma conjuntura, e a consequência de ações semelhantes. As condições da América do Sul, por exemplo, diferem diametralmente a da Oceania, que diferem da Ásia, e assim por diante. Este é o ponto de partida para qualquer análise deste campo; existe, portanto, uma necessidade de realçar as “colônias” com a natureza dos seus próprios esforços. 

Dentro do processo que advém dos Ibéricos para com as terras brasileiras, de início, teve-se uma idéia corriqueira de que o Brasil era apenas mais uma terra inóspita e tremenda[10]; responsável por isso, talvez, pode ter sido os acontecimentos que aqui marcaram de início. Porém, aos poucos esse cenário foi sendo alterado. A situação criada a partir do Governo Geral, devido às problemáticas já enfrentadas do poder fragmentado, concedeu ao Brasil uma imagem mais real e ainda mais atenciosa. A corte de Lisboa, percebendo a desconformidade das Capitanias Hereditárias, sendo dito através dos próprios Donatários, no que tange a estrutura que ali estava sendo formada, decidiu tomar uma providência de imediato. 

É com este exemplo, isto é, quando ocorre a alteração da forma da administração que os próprios donatários clamaram, ante as dificuldades enfrentadas e as baixas na produção[11], passando ao Governo-Geral, cujo próprio nome revela seu aspecto centralizador, denota concomitantemente, uma das particularidades essenciais daquele momento e que, por sua vez, alcançaria a enfim conformidade e satisfação. Em 1548, com os povoados iniciais de São Vicente, Espírito Santo, Pernambuco, Bahia, Ilhéus e Itamaracá[12], representavam, enfim, uma necessidade de um alcance maior; o país, naquele momento, já dava suas primeiras caminhadas em suas relações internas, estabelecidas entre as capitanias e, para que isto não obtivesse mais problemas, alguma ação política tinha de ocorrer. Não o era suficientemente econômico, nem muito menos fácil até mesmo de realizar alguma comunicação; o simples fato de enviar uma carta, de Pernambuco até o São Vicente, por exemplo, tinha de ser marítimo, pois a estrutura interna não era viável e, por consequência, alavancava a dificuldade.

Não há muito espaço para pontuar as possibilidades e alternativas que o Rei Dom João III, poderia conceder, ou chutando alto, arriscar, em momentos de tensões em relação a essas terras. Os franceses, por exemplo – logo em que a nomeação de Tomé de Sousa, sendo o primeiro Governador do Brasil[13], do qual, como autoridade geral, recebia um Regimento minucioso – buscavam, em opções de infiltração, baseados já nas tentativas anteriores, a ajuda de algumas tribos indígenas para atacar os portugueses aqui fixados.

A criação do Governo Geral foi, decerto, uma forma que Lisboa encontrou de conseguir administrar uniformemente o país, sem que tivesse tantas e outras preocupações que agora lhes pareciam desnecessárias. Por muito tempo, antes da instauração da nova administração, todos aqueles que aqui apreciavam as novas terras, adentrando-a com expedições, e até mesmo aqueles pequenos grupos que se fixavam, passavam mais tempo guerreando e defendendo-se dos indígenas do que produzindo proriamente[14]. E ainda quanto aos donatários, as “doações” de terras – da qual não eram propriedade territorial, era apenas benefícios, uma parte do usufruto – não almejaram sua autossuficiência pelo exemplo da agressividade indígena. É por esta razão que a sede do Governo-Geral funda-se a cidade de Salvador, na Bahia – por causa da possibilidade de comprar a capitania da família de Francisco Pereira Coutinho, cujo drama foi efetuado[15].

Existem alguns autores que afirmam categoricamente que a “colônia”, a partir da conjuntura comercial, política e da própria infraestrutura do Governo-Geral, não era, em fato, uma colônia no sentido lato; este levantamento historial – do qual não procurarei resolvê-lo por ora – aparenta ser muito consistente devido às circunstâncias comparativas entre o que se compreende como Colônia e qual a alternativa, do Brasil, no que diz respeito aquele momento; pode ser lembrado, como já foi pontuado a pouco, os arcabouços das idéias políticas e religiosas que alçam estruturas intrinsecamente mais elevadas – mas, repito, não desejo dar por resolvido um problema complexo e amplo em apenas um capítulo. 

Mesmo, portanto, Portugal ainda apresentando a “posse” – ou, metodologicamente falando, “relação” – das terras brasileiras, foi o Governador Tomé de Sousa, o Provedor-Mor da Fazenda, Antônio Cardoso de Barros, e Pêro Borges como Ouvidor-Geral[16], os responsáveis – mais especial e particularmente Tomé de Sousa – a retirar o Brasil de seus estados árduos e tão custosos, realizando, por esses regimentos, a ‘colonização oficial’, ‘fundando uma fortaleza e grande povoação na Bahia, de onde foi possível dar favor e ajuda às demais povoações; promovendo a justiça, direitos e alavancando os negócios financeiros’[17].

O país, agora, estando em boas mãos, ao menos, e devido ainda às limitações de seu tempo, tecnologicamente falando, apresentou-se em Tomé de Sousa, indivíduo notavelmente respeitado, prudente e muito bem acompanhado com sua religiosidade; acompanhado, conjuntamente, com o capitão-mor da costa, Pêro de Góis – isso sem contar os quase 1.000 homens, contando com 300 colonos, 400 degredados e aproximadamente 200 homens de tropa regular[18] – todos, vindos de Lisboa; aplicou a ordem que faltava ao país. Isso, inclusive, facilitou a criação das primeiras moradias – devido à proteção militar – sem contar a de novas igrejas, e pequenas escolas que surgiriam, aos poucos, graças aos Jesuítas, e a abertura de estradas para uma transição e comunicação mais fácil.

A grandiosidade da administração de Tomé de Sousa ainda é notável até nos dias atuais. Desde sua participação na Ásia, sua amplitude de possibilidades concretas, seu horizonte de visão, transcendia – e muito – dos administradores daquele momento; não é atoa que, em um curto espaço de tempo, conseguiu encontrar impossibilidades enormes em fixar a fundação da cidade em Vila Velha, percebendo-a como imprópria para a capital do domínio; logo o foi, explorando o Recôncavo, que encontrou o local perfeito, geográfica e politicamente, a ser fundado[19]. 

A Bahia é como dissemos, a primeira capitania Real, como Salvador é a primeira cidade brasileira e a primeira capital da Colônia[20]. O ponto de escolha não foi, jamais, uma “opção de gosto” (assim como Brasília, fora o jogo Político), mas, na verdade, foi um ponto estratégico, seja pela excelência geográfica do litoral, seja para a proteção que do qual se evitou, em demasia, os ataques de corsários e/ou indígenas revoltados.

Indo mais além, a função de Tomé de Sousa foi proporcionar, “[...] ajuda, prover nas coisas da justiça [...] sendo sua função muito mais vasta que de simples fundador da cidade. O que vinha ele fazer era principalmente instituir a administração geral, pôr em ordem as diversas capitanias, instalar em todas elas a justiça do rei, proteger o esforço dos donatários, regularizar as coisas da fazenda [...] e formou-se o conselho ou a câmara de vereadores”, tal como explicitado por Rocha Pombo.

E assim foi feito. Quem quer que tenha analisado os primeiros anos de vida do país, acompanhando suas estruturas políticas e as idéias que aqui estiveram sendo, aos poucos, construídas, acompanhadas com as aspirações e a continuidade do projeto luso-brasileiro, perceberá de imediato a suficiência que, naquele momento, o país se encontrava. As riquezas, concomitante no que tange suas buscas, agora estavam com caminhos mais abertos e mais completos. A defesa territorial agora, ao menos, existia. Portugal, enfim, conseguira uma estabilidade e ordem maior em relação às terras brasileiras, fora a vinda e a “criação” da população propriamente dita[21], e a longa caminhada para o desenvolvimento moral e técnico que o Brasil, naquele momento, dava por iniciado.

No entanto, nem tudo estava perfeito. A insistência de alguns indígenas quanto ao território, enfezava, e até mesmo inviabilizava algumas ações dos colonos; em uma das viagens de Tomé de Sousa – visto que a estabilidade já estava adquirida no Nordeste – deparou-se com esta problemática, fora uma quantidade absurda de queixas contra aventureiros e navegantes que invadiam o campo em busca de lucros[22]. Isso sem contar que, muitas vezes, alguns colonos exerciam uma força da qual era desnecessária, assim como é contado pelos Jesuítas, estes dos quais eram demasiadamente contra.

Este cenário que agora se encontra, resistiu com equilíbrio e segurança, apesar de não ser a perfeição. Houve, por alguns momentos em que Tomé de Sousa governava algumas alterações em administração e um aprofundamento em questões mais particulares que do qual não era critério único da Bahia – mesmo a diferença ainda sendo percebível com as análises antropológicas mais recentes.

Estende-se, portanto, este estado, esta constância do Governo-Geral, pela administração de Tomé de Sousa, até o dia 13 de Julho, de 1553, quando, o novo governador, D. Duarte da Costa, assumiria o cargo. É também, no tempo de sua gerência, que por altos e baixos e razões que não estão diretamente relacionadas, que haverá a famosa invasão dos Franceses, na Baía Guanabara.

Não é de todo inusitado a tentativa de invasão por parte dos Franceses. Estes, já haviam tentado tempos anteriores, já no tempo das Capitanias; pois, é verídico que a França daquele momento era uma das concorrentes mais excepcionais no que tange as navegações – concomitante para com as várias evidências, no que diz respeito aos problemas econômicos nos quais viviam[23]. Realmente, Nicolas Durand de Villegaignon, responsável pela invasão francesa no Rio de Janeiro, se deparou com problemas que nem seria imaginável dentro da ótica que a França retinha[24]. Em facto, os franceses foram campeões em dar “mancadas”; Villegaignon, tendo, por questões teológicas, reenviado os calvinistas, o almirante suíço Coligny, de volta para a Europa, apenas ocasionou a descoberta por parte do Governo-Geral que, ao ficar sabendo de sua existência, rapidamente organizou, na Bahia, uma expedição para expulsá-lo[25].

Mas, sejamos justos com os Franceses. Eles conheceram muito bem nossa terra, a partir de Guanabara[26]; Villegaignon era, em demasia, famoso por toda a Europa. O que pode ser dito, sem nenhuma sombra de dúvida, de que se não fosse às problemáticas “não unicamente marítimas” que a tropa francesa enfrentou – fome, falta de abrigo, etc – com certeza o Rio de Janeiro seria mais Francês do que Português. É preciso reconhecer, também, que sua tropa foi inspiração de poesias posteriormente; por mais que, historialmente, obteve-se complicações, o sentimento acolhedor brasileiro permanece.

A viagem foi, decerto, muito delicada. E ainda aqui, enquanto buscava-se explorar as paragens, reconhecendo os esteiros e recôncavos da imensa baía[27], prosseguiu, por muito tempo, sem ao menos um respaldo externo (francês) que pudesse ajuda-lo; isso, concomitante no que tange a falta de recursos, ocasionou um grande descontentamento por parte dos próprios franceses; há indícios de que alguns já planejavam uma conspiração, outros, apenas conseguiam, com as forças que lhe sobravam, nadar até a costa e almejar algum perfeito conluio com os índios[28]. No entanto, por mais que houvesse essas dificuldades, Villegaignon não desistia. Sua insistência, diante do impossível – diz alguns historiadores – acabou por provocar uma insanidade em sua mente; é um facto inegável que, devido às complexidades abstrusas que passaram, pouco seria uma atitude “sinistra e tenebrosa”[29].

É com este estado que apresento o relato, exemplificado da melhor maneira, por Rocha Pombo:

                       “E para fazer-se uma idéia do extremo a que este homem tinha descido naquela fase de histeria criminosa, basta ver a conduta de celerado que teve com alguns daqueles calvinistas retirantes, que preferiram retroceder para o forte a arriscar-se a uma travessia do oceano em um navio que começava a fazer água antes de se haver afastado da costa. Eram cinco os genebrinos que tinham deixado o navio, e à custa de longos sofrimentos, vieram alcançar outra vez a Guanabara [...] Procuraram logo o vice-almirante, apelando para a sua misericórdia. O bárbaro, nos primeiros momentos, tranquilizou os aventurados; mas dali a dias, meteu-se-lhe na alma celerada a suspeita de que aqueles pobres homens eram espiões dos falsos fugitivos, e com requinte de inclemência e de dureza que faz gelar o coração, mandou afogar três dos desgraçados na baía, condenando os dois outros a trabalhos de calceta no forte”. (POMBO, Rocha. História do Brasil, p. 136).

Os portugueses, tendo, precedentemente, noção de sua existência, já estavam preparados, junto com algumas tribos indígenas aliadas[30]; por outro lado, tendo ciência disto, Villegaignon foge, deixando apenas seu rastro de crueldade e um sonho utópico jamais realizado.

Mas quem, em facto, expulsa os Franceses que restavam na Baía de Guanabara, foi o novo, o terceiro Governador-Geral da Bahia, Mem de Sá, que assume seu posto em 1558 e que, dilata-se, até 1572. Pois é com ele que as obras de defesa do litoral e os esforços pelo povoamento se agravam; é por isto sincrônico no que diz respeito à expulsão dos Franceses[31]. A cidade do Rio de Janeiro surge desses pressupostos; a defesa territorial em direito dos portugueses e sua continuidade populacional propriamente dita. Estácio de Sá, em 1565, mais precisamente.

Não foi único em pacificidade. Mem de Sá enfrentou conflitos com alguns indígenas que já atiçavam sua própria indignação a partir do governo de D. Duarte da Costa[32]. Isso sem contar os Tamoios, a tribo que os Franceses – aqueles que fugiam da Baía em busca de ajuda, e aqueles que entravam já em contato na mesma – incitavam contra as colônias. A situação, por mais que não se se trata de um grande desafio, revelava seu obstáculo, novamente, pelo elemento indígena – dos quais retinham um grande conhecimento das terras. Não há um cálculo preciso de quantos ali estavam.

Antes de a batalha dar-se por iniciado, Mem de Sá tinha que colher o máximo de informações sobre os Franceses; logo que soube da saída de Villegaignon, contribuiu de imediato, para agir[33]. O tempo de investigação gira em torno de 28 de Fevereiro até poucos dias antes da batalha, que teve como vitória no dia 16 de Março, sendo comemorada no dia 17. O combate durou mais de um dia, com vitória dos Portugueses, do qual escalaram a fortaleza construída pelos Franceses, e obriga-os a recuar e fugir logo de noite. Apesar de Mem de Sá ter se esquecido de se aproveitar do Forte, destruindo-o depois da batalha, não foi, decerto, um mau governante. Afinal, ele abriu portas para que os Jesuítas pudessem realizar suas missões e trabalhos espirituais de uma forma incrível; ajudou os padres, por exemplo, a abrir uma nova estrada e até mesmo a fundar a atual Cidade de São Paulo.

É neste momento, com todos estes acontecimentos, que temos o indício das primeiras instabilidades; os franceses que sobreviveram, e que nadaram até a costa, passaram a desencadear uma tormenta, e alguns deles, com seu espírito da não desistência, voltaram à Baía; os indígenas tornaram-se mais violentos e os padres tentam, a todo o momento (como Nóbrega e Anchieta), realizar um tratado de paz[34].

Não há muito espaço para resgatar idéias e propostas políticas em um cenário conturbado. Por esta razão, a Côrte de Portugal, deparando-se com esta situação de desfalecimento mútuo do qual o Brasil passava, teria de resolvê-la em um ato, em apenas uma ação; do contrário, aquele país, próspero, rico e agora importante para consigo mesmo, que dava continuidade às suas tradições, cairia em desordem em pouco tempo.


Por - Lucas Emmanuel Plaça
_______________________________

Notas:
[1] Erro cronológico; apoia-se, numa idéia contemporânea, impondo-a, dogmaticamente, no que tange o contexto do passado;
[2]Atento-me à esta asserção. As tradições, a absorção da cultura Ibérica não se trata, única e exclusivamente, da política. Existem mais relações e pontos muito particulares a ser realçado;
[3]”Produto”, não no sentido que os Marxistas ou Positivistas, do campo historiográfico empregam; Produto no sentindo que Mário Ferreira dos Santos emprega, em sua grande obra “Filosofia e História da Cultura - T. 1”. A história, por exemplo, pode produzir um conhecimento que, produzido, torna-se um produto; não tem como realizar algo, por exemplo, sem ser algo – historialmente falando. 
[4]”Essência Histórica” não se trata de Filosofia da História, ou Historicismo;
[5]O rompimento com as tradições, dado por iniciado na Proclamação da República;
[6]Noção de Império Português; o domínio de Portugal não era unicamente o seu próprio território ibérico;
[7]Alguns Historicistas enunciam, vagamente, que o Brasil foi “achado” ou “uma terra que aconteceu”; 
[8]”Aporético” no sentido Cético, propriamente dito;
[9]Assim como é devidamente resplandecido nos livros de História da África, ou meramente os livros de historiadores sérios, os escravos Africanos, antes de serem comprados pelos Portugueses, outras tribos, rivais, das quais aprisionaram-nos, ameaçavam mata-los ou, dependendo da tribo, realizar rituais com seus corpos;
[10]Rocha Pombo, Página 109;
[11]Trajetória Política, pg. 27;
[12] Rocha Pombo, Idem;
[13] Tragetória P. Idem;
[14]A maioria das tribos indígenas acreditavam que todo o espaço geográfico, inclusive aquele que não era conhecido, pertencia à eles;
[15]Tragetótia P. pg. 27; As “doações” de terras não tornavam-na posse daquele que a recebeu; apesar disto, alguns vendiam suas terras para a própria Côrte;
[16]Rocha Pombo, pg. 111;
[17]Idem;
[18] pg 113;
[19]Idem;
[20]Trajetória P. pg 27;
[21]Apontamentos para a História dos Jesuítas; Formação Histórica do Brasil;
[22] Rocha Pombo, pg 116;
[23] Formação Histórica da Nacionalidade Brasileira. Oliveira Lima, pg 61;
[24]Idem;
[25]Idem;
[26]Rocha Pombo, pg 112;
[27] Idem;
[28] Idem;
[29]Idem;
[30]Rocha Pombo, pg 115;
[31]Trajetória P. pg 30;
[32]Pedro Calmon, História da Civilização Brasileira;
[33] Rocha Pombo, pg 151;
[34] Idem;



domingo, 19 de fevereiro de 2017

A esquerda forjou a História


A esquerda forjou a História e enganou muita gente durante muito tempo. Ainda hoje você verá na TV e nas escolas pessoas ensinando que a esquerda lutou contra os militares pela democracia; mas isso é uma grande inverdade!

O que eles queriam mesmo, desde o início, era instaurar um regime ditatorial socialista no Brasil!
Somente um idiota útil já convencido previamente pela cegueira ideológica, é capaz de acreditar em "socialismo e democracia" ao mesmo tempo.
Ou você tem um, ou tem o outro.

Eduardo Jorge admite que esquerda não lutava por democracia e conta os podres do PT: goo.gl/VMuX7I

Eduardo Jorge admite o que Dilma sempre escondeu "éramos a favor da ditadura comunista": goo.gl/weopKx

Eduardo Jorge



segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

História Política Brasileira - Formação e Idéias


              Precedentes; Breve Formação Política de Portugal

Na história de nossa política, não só fulgura meramente sua perspectiva e fisionomia internas, no conhecimento de todas as suas notas e particularidades, como também o entender externo e amplo que por sua vez possui conexões muito consistentes no que tange as idéias e as ações de que aqui se trata. A Terra de Santa Cruz[1], tal como se apresenta historialmente[2], não se revela, de maneira alguma, isenta de formação e de aparências que se afloraram através das atividades Ibéricas; portuguesas e espanholas, por assim dizer. Antes de adentrarmos o foco de interesse, isto é, as idéias, e a política propriamente brasileira, devemos, pontuar ao menos minimamente, a formação política de Portugal para que possamos empreender com mais facilidade o Descobrimento e os acontecimentos posteriores sem necessidade de outros aprofundamentos.

Portugal, já em sua transição do Medieval ao Moderno, trouxe, à mercê de extensidades[3] muito comuns da época, uma formação econômica e política que já não era senão a própria identidade de Estado-Nação. É claro que dentro desse aspecto, não podemos compreender a situação portuguesa com vieses subversivos para com seu contexto; muitos historiadores enxergam em Portugal, não só uma espécie de dissidente quando relacionado ao seu tempo, mas como também uma forma característica de afirmação das próprias evoluções econômicas. Não é o caso.

É fato de que a posição geográfica de Portugal foi realmente muito favorável para o comércio marítimo, sem contar uma leva de intercâmbios culturais não tão precisos. Mas dizer que isso torna o caráter português muito diferente de províncias e reinos Europeus, é uma inverdade muito profunda; em uma rápida asserção, não foram os próprios europeus que resgataram e copiaram escritos de outras culturas[4]? Não foram eles que conseguiram mesclá-las, elevando o grau da civilização Cristã? Portugal não foge dessa regra, de certa forma. O que podemos enxergar de diferente – o que sempre houve desde dentro nessas regiões – trata-se de suas ordens antropogeográficas. O “restante”, se assim podemos dizer, havia e muita semelhança e compatibilidade no seio de seus desenvolvimentos morais e culturais[5].

Mas este cenário do qual estou falando, só deu-se por iniciado a partir da Dinastia de Borgonha, ainda em 1139. Portugal não fora, desde seus primórdios, altamente influenciado por estas bases; até certo tempo, a expansão muçulmana conseguiu fixar-se em boa parte da Península Ibérica e foram, nesse período, intrinsecamente expulsos[6]. Essa dinastia não dura muito tempo com a chegada da Revolução de Avis, de 1383 – 1385, que, concomitante para com algumas aspirações absolutistas, surge, daquilo que falamos a pouco, a criação daquela forma política da qual prevaleceu durante seu tempo – e que se estendeu por vários anos, como veremos posteriormente.

É com este cenário no universo português que se têm o marco inicial da expansão marítima, o marco que se expressou na conquista de Ceuta, em 1415; cidade, esta, Espanhola, consistida na costa Africana no Estreito do Gilbatrar, conhecida, também como uma “cidade autônoma” para a época. É a partir daquele momento em diante que os portugueses entenderam de que, a tecnologia desenvolvida, as teorias, os cálculos e, quase que principalmente, o financiamento para as viagens marítimas, era mais do que necessárias; esta percepção tornou-se uma prática no que tange os interesses da Côrte e, inclusive, a de muitos grupos e indivíduos ricos da época. Dos acontecimentos em diante, a respeito desses aspectos, seguiu-se na negociação de Portugal e Castela, a criação do Tratado Alcáçovas que teve de ser substituído pelo de Tordesilhas[7]; a Bula Eterni Regis que validava os documentos Romanus Pontifex[8] e Inter cætera [9]; início dos ciclos de expanção Oriental e Ocidental, etc.

Dos documentos citados mais acima – que por sua vez estarão mais completos nas notas finais deste capítulo – nos evidenciam a recente especulação de que os Portugueses, de que ignorantes não tinham de nada, aproveitaram a intuição clássica de que existia “novos mundos”, novas terras no mundo ocidental; quem mais fundamentou esse aspecto foi Oliveira Lima, em seu livro “Formação da Nacionalidade Brasileira”:

                       “Poderia eu citar-vos várias dessas cartas e mesmo desses globos terrestres. Seria isto erudição fácil, de que vos poderíeis prover algures e com todas as minúcias. Lembrarei somente, de passagem, que o gravador italiano de uma medtalha de bronze com a efígie de Carlos IV de Anjou, conde de Maine, tendo, pelo meado do século XV, de desenhar um mapa-mundo, designou, com o espírito de resolução que destingue sua raça, sob o nome de “Brume” (em latim Bruma), o quarto continente, o qual prendia então de uma maneira muito viva a atenção dos cosmógrafos [...]” (LIMA, Página 40). 

Mas não foi o único. Até mesmo Francisco Iglésias pontuou, brevemente, na Tragetória. A idéia central é de que, já na Antiguidade, até mesmo o filósofo Aristóteles e um geógrafo da cultura chamado Estrabão, ambos tiveram intuições destes continentes povoados[10]. Estrabão, sobretudo, “deu como certa a existência de uma terra ocidental, que, mais tarde, se tornou, por assim dizer, o objeto constante da imaginação de numerosos sábios, com tendências humanistas”.

Isso foi, decerto, um ótimo arcabouço para um físico em específico, a bordo de Pedro Álvares Cabral, intitulado Mestre João; fora instruído por um ofício de Portugal, mas há de realçar de que poderia ele ter recusado mediante a conjuntura política da época; foi-se por curiosidade em saber se tais teorias, de tão clássicas a respeito, estavam de fato corretas.
Tiveram-se grandíssimos investimentos a partir do reconhecimento de algumas dessas idéias. Mas, quanto a esta, devo alertá-los de algo. O objetivo de evidenciar a questão de que os Europeus “já tinham o conhecimento do novo mundo” não permite a total exclusão do termo “Descobrimento”, quando se têm a chegada dos Portugueses, por duas razões: 1- Ter ciência da probabilidade de novas terras, baseada nas documentações de que muitos orientais migravam para seu Leste (ou seja, caminhando em direção ao Pacífico e, sobretudo, as terras americanas), não significa de que tinham a certeza mais absoluta possível. 2- Mesmo se a tivessem, o termo “descobrir” já releva pressupostos de que se trata da coisa ainda não conhecida, sem excluir a possibilidade de sua existência, ao menos por completo. Podería-se ser dito, historialmente, de que os Portugueses especulavam da existência do território que, não obstante, ainda não invalida a tese do descobrimento, visto a vasta gama de boas novas que foram por aqui encontradas, fora a enfim conclusão de que de fato existia[11].

                        A Terra de Vera Cruz; Das navegações

No fluxo das navegações (ou expedições marítimas), é possível notar com muita facilidade o grande preparo, acompanhado de algumas preocupações um tanto notórias no que se refere aos próprios tripulantes; imagine você, caro leitor, em pleno mundo moderno cuja tecnologia eficaz e avançada dos tempos atuais não estava ao alcance, tendo de apelar a construções matemáticas e físicas das mais complexas e que não respaldavam suficiência definida. No entanto, a grande mescla, se assim podemos dizer, de conhecimentos marítimos, impulsionou por anos a fio grandes feitos e grandes descobertas.

Tal impulso, através de tantos requerimentos dirigidos aos soberanos íberos, das concessões papais quase como regra[12], tão forte o foi que, no mesmo ano em que Pedro Álvares Cabral lançou âncoras em Porto Seguro, 1500, Yánez Pinzón descobriu uma parte da costa do norte do continente meridional (America do Sul), e ancorou na enorme embocadura do Amazonas; Diego de Leppe, outro espanhol, se deteve diante das costas setenrionais (Norte do Brasil), assinalou o cabo de Santo Agostinho, e verificou que o litoral, a partir dali, se inclina gradualmetne na direção do sudoeste[13].

Sem a pretenção de resumir-se, nessa parte, a um romântico escritor, vejo-me na necessidade, das mais agradáveis para ser sincero, de dizer de que o campo das idéias portuguesas, ou a mentalidade portuguesa desde Avis passou a usufruir de uma bela adequação entre a Tradição e a Evolução[14]. Ora, sei que dizer isso pode parecer-nos óbvio, mas foram os Íberos que permaneceram com as influências escolásticas e eclesiásticas apesar da iniciação do Renascentismo italiano; sem, não obstante, excluir a possibilidade, ou melhor, à vontade e a aspiração de experiências políticas que pudessem melhorar suas condições[15]. Um dos exemplos que Nelson Nogueira Saldanha, em sua obra “História das Idéias Políticas no Brasil”, confere, por exemplo, “a idéia de ‘Império’ que na Espanha de Carlos V se reelaborava sob condições singulares (veja-se o famoso estudo de Menéndez Pidal a respeito); as lutas contra os mouros, dando à noção de cristandade um cimento político-militar agônico, inconfundíavel; o esforço de Portugal para se manter autônomo, em sua realeza começada como feudo rebelde e depois tranbordada em potência marítima e desbravadora de orbes.”[16]

Em todo o caso, Portugal ainda teve dificuldades diplomáticas juntamente com Castela – que, tal como assinalado precedentemente, firmaram-se acordos. Até mesmo os Franceses, que já tinham interesses nessas terras após a descoberta[17], como por exemplo, os marinheiros Honfleur e Dieppe, encontravam-se presentes nessa grande conjuntura.

Sem, em conjunto, querer retirar o mérito e o grande feito de Portugal no sentido da Descoberta das terras, é bem possível dizermos de que as outras influências marítimas, tal como a espanhola, francesa – e até mesmo a italiana posteriormente – impulsionaram o horizonte de interesse português no quesito da defesa das terras que já obtinham no Oriente; estes, dos quais, já continham alta influência nas Índias, algumas expedições no Japão, partes da costa Africana, etc.[18] O que, aliás, para este que vos escreve, engrandece ainda mais o mérito tecnológico, coragem e audácia que por sua vez seria o senso de união necessário no que tange a população portuguesa para almejar êxito pleno sob tais terras; realmente a dificuldade não residia, única e exclusivamente, no interposto econômico para o financiamento, mas, um recenseamento feito em 1527 dava-lhe apenas 1.326.000 habitantes. Isto é, em 1500, com essa população de faixa reduzida, com uma espécie de império em crescimento ininterrupto, evidenciava-se, em conjunto, o grande risco de desestruturação e problemáticas com apenas um deslize mal pensado[19].

Apesar dos problemas e de todas as confusões marítimas que todos passaram[20], apesar das dificuldades para conseguir encontrar essas terras, tudo deu certo. É o momento em que Pedro Álvares Cabral, dito justo, não muito sábio, mas muito bem acompanhado, o mesmo que efetivamente se dirigia às Índias – devido as recentes descobertas de Vasco da Gama e que o próprio recomendou navegar o mais próximo a Oeste para evitar ‘calmarias podres da Guiné’ – encontrou aquela aspiração que faltava para Portugal e que fez jus às intuições dos antigos; a terra, a ilha ou continente do qual não tinham pleno conhecimento, no entanto, foi nomeada devidamente – através da famosa Carta de Caminha – de Terra de Vera Cruz.

                    Idéias Políticas em seu primeiro momento

No campo das idéias políticas, já arraigadas desde Portugal, das quais se afloram antes da Centralização da Admnistração, isto é, a criação do Governo Geral em 1549, não podem ser compreendidas, sobretudo, dentro de uma ótica contemporânea[21] tão usualmente praticada. O que, no entanto, não me impede de enunciar e admitir a dificuldade de identificar dissipações de idéias desse campo, por conta de algumas documentações que procuraram obter, por hipóteses, uma coerência autossuficiente; em outras palavras, ações políticas refletidas sob seu contexto e horizonte de entendimentos religiosos, institucionais, etc.[22]

Durante esse período de quarenta e nove anos, clarificada pelos passos iniciais da Colônia[23], não houve, no Brasil de então, um pleno reconhecimento político-institucional, nem prescrisão de idéias, nem muito interesse por parte da Côrte.

O fato é que a coroa portuguesa, a respeito das navegações e concorrências advindas de tantos outros povos, entendia – e com certa razão – de que precisava proteger e manter territórios que já havia sido conquistado no Oriente; tais como os franceses, não obtiveram tanto êxito quanto Portugal no que tange as terras brasileiras, gerando certa tranquilidade quanto à defesa do território. Mas é conjuntamente impossível dizer de que Portugal exerceu desleixo sobre. Teve-se, fora expedições, como a primeira já em 1501, afim de adentrar as terras, outras mais importantes e planejadas como a de 1516 por Cristóvão Jaques; Na expedição de Martim Afonso de Sousa, de 1530 a 1532 foi, de longe, a mais relevante. Foi nesta, pela amplitude e pelas propostas de um bom aproveitamento da terra, sem excluir o acolhimento do Pau-Brasil; reconheceu-se uma enorme faixa do Litoral, de Pernambuco até o Rio da Prata; funda-se a primeira Vila, a de São Vicente, com leve penetração da atual cidade de São Paulo.

Uma das idéias de Jaques e o Martim Afonso de Sousa – e que por sua vez o Governo Português aplicou-a, como já dito precedentemente – foi da percepção de que, como nessas terras não existia muita possibilidade de dominação por parte de outros estados, o governo que aqui residiria deveria ser descentralizado[24]. Da idealização que por fim não resultou senão da necessidade das famosas Capitanias Hereditárias, surgiu-se das tentativas de um sistema de convocarem-se os nobres e militares para direcionar tal governo; a concepção era bem fundamentada historicamente, já sendo observada nas ilhas do Atlântico – Açores, Madeira, Cabo Verde, Porto Santo, São Tomé, etc – mas a situação brasileira era outra completamente diferente. De todo o modo, o sitema hereditário, instituído em Janeiro de 1534, seguiu-se até 1548; desde os primeiros dias dessa iniciação, foram se encontrando muitos problemas, ora das tentativas de invasões, cujo poder descentralizado era inteiramente incapaz de exercer alguma defesa, ora dos confrontos interiores[25].

Não a muito do que pontuar nesse período sem uma administração tão concisa, senão o que já teve como realizado em outros artigos (capítulos, por assim dizer), a cerca da Literatura e a Educação brasileira; tais pontos, mais internos ao processo, estão mais completos nestes outros. Mas há de ressaltar que, nesse primeiro meio-século abordado, fora uma rápida estrutura do pensamento português – este do qual será aprofundado devidamente em artigos posteriores – mesmo Portugal não exercendo tanta confiança de início, foi o momento em que, enfim, o Império Português[26] encontrou uma de suas maiories fontes, ao mesmo tempo em que, gradativamente, serviu-se de fonte para uma futura nação.



- Lucas Emmanuel Plaça;
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Notas:
[1] Terra de Santa Cruz/ Terra de Vera Cruz/ Brazil; região que, por pouco, tornara-se nas percepções de alguns uma mera ilha e que, posteriormente, percebeu-se algo de maior, tal como foi batizado;
[2] Termo relativo a Historial; em seu sentido mais lato, como “obra historiográfica” sem a pretensão de enunciar determinada Metodologia, apenas como “ciências humanas”;
[3] A terminologia “extensidade”, foi inicialmente enunciada por Mário Ferreira dos Santos no primeiro Tomo de sua obra “Filosofia e História da Cultura”; o termo revela-se como a definição de cronologia, factos e acontecimentos que possam ser identificados com certa semelhança, eideticamente, sociologicamente;
[4] No mundo medieval, os Monges Copistas, tal como nome sugere, exerciam esforços sobre-humanos para resgatar/salvar os grandes autores; tal fator, assim como o foi explicitado, pode ser encontrado brevemente na obra “História das Guerras e Batalhas Medievais”(P. Jestice);
[5] Na magnífica obra “Como a Igreja Católica construiu a Civilização Ocidental” é evidenciado a amplitude alcaçada pelo cristianismo e que, ao longo do tempo, pepertuou-se como uma cultura fortíssima;
[6] Atento-me às más interpretações que possam realizar a esta asserção; não há indícios religiosos, culturais e intelectuais, nessa transição, de alguma influência evidente por parte dos Islâmicos;
[7] Enquanto o Tratado de Alçaçovas era suficiente para a paz;
[8] Romanus Pontifex foi uma bula pontifícia emitida pelo papa Nicolau V para o rei Afonso V de Portugal, datada de 8 de janeiro de 1455. Neste documento, e na sequência da anterior bula “Dum diversas” de 1452, o papa reconhecia ao reino de Portugal uma parte das terras desde o cabo Bojador, ao longo de toda a Guiné e mais além, ao sul.
[9] Essa bula obteve controvérsias; foi dita “injusta e tendenciosa”; ao determinar como referências as ilhas de Açores e Cabo Verde, tornou-se inviável pois suas longitudes eram diferentes em demasia, inviabilizando a demarcação por completo;
[10] Explicação mais detalhada em “Formação Histórica da Nacionalidade Brasileira”, do autor Oliveira Lima;
[11] Muitos autores/historiadores estão olhando com profundidade a questão do Descobrimento. Algo que, não obstante, teria de ser simples em demasia, encarar o facto histórico com honestidade para com suas fontes, sem determinação metdológica (como diria Olavo de Carvalho, n’A Filosofia seu Inverso, “Metodocracia”); coisa que, de muitos atuais, até cogitam a possibilidade de reescrever toda a história, inclusive as mais sensíveis à manipulação. Repito: Meu intuito ao evidenciar esse aspecto não fora metodocrático;
[12] Página 42, Oliveira Lima;
[13] Página 43, Idem;
[14] Atento-me ao “adequação da Tradição e Evolução”; como já enunciado na nota décima primeira (11), não há resquício metodocrático;
[15] Mais informações em “História das Idéias Políticas”;
[16] Idem;
[17] Oliveira Lima, F.H.N.B;
[18] Página 19, Tragetótia Política do Brasil;
[19] Idem;
[20] Existe uma história das navegações, mais aprofundada pela fonte primária, Dom Rodrigo; trecho: “Tendo a esquadra completa, Dom Rodrigo de Acunha, de que fazia parte seu barco, se dispersando, antes da passagem do estreito que leva ao Pacífico, buscou abrigo num porto do sul de Santa Catarina, onde uma parte de sua equipagem, encontrando-se com antigos companheiros de Solis, preferiu antes ali se estabelecer para um pequeno descanso. No entanto, alguns de seus homens do navio decidiram voltar para a Espanha pois naquelas poucas horas que descansaram, alguns foram sendo aprisionados por alguns indígenas canibais, e mais adiante tendo de procurar ajuda pois seu navio estava completamente destruído e pronto para afundar, acabaram encontrando numa costa próxima três navios Franceses.
Enquanto Dom Rodrigo dormia junto a mais três ajudantes, um dos capitães franceses, decidindo tomar seu navio e expulsar todos seus tripulantes, acabou por, na verdade, realizar uma barganha. Pois um de seus conterrâneos espanhóis ofereceu caixas de vinho e azeite em troca do barco que agora poderia pertencer aos Franceses. Enquanto essa troca de pertences acontecia, os que ficaram a bordo coletaram utensílios suficientes para arrumar o barco, e partiram para a Espanha novamente.
Porém, seu capitão, ao perceber -- enquanto seu sono o atacava ainda na praia -- que seu próprio barco partia para longe, acordou seus companheiros e desesperadamente seguiram numa pequena canoa de vela, durante quase dois dias, a gritar e gesticular como possessos. Seu subcomandante, "um desgraçado" -- assim o conta -- e seus outros tripulantes desembarcaram dez léguas mais ao norte, sendo capturados por mais indígenas. Dom Rodrigo, em uma carta escrita em Pernambuco para Madri, depois de muitos anos, relata isso com tons ainda muito raivosos e satíricos, finalizando-a no sentido mais amplo de "ninguém mandou me esquecer!".”
[21] Dos mesmos Historiadores atuais;
[22] Mais detalhes em “Instituições Políticas Brasileiras”;
[23] Há controvérsias recentes enunciando de que a Colônia não poderia ter sido iniciada em 1500 pela ausência de um poder direto, objetivo; pormenores como este podem ser encontrados na “Semana de História – Ensino e Pesquisa na Construção da História”, de 2005; 
[24] Mais detalhes em “Tragetória Política do Brasil”;
[25] Assim como é brevemente citado por Oliveira Lima, F.H.N.B, os indígenas acreditavam, por uma questão religiosa e cultural, de que todas as terras – inclusive as quais eles desconheciam – pertenciam à eles; motivos, também assinalados, da iniciação das guerras como fator cultural;
[26] Portugal havia chegado a uma espécie de Apogeu, conquistando dezenas de territórios afora; daí o termo “Império”; 


terça-feira, 24 de janeiro de 2017

História da Literatura Brasileira (Pós-Modernismo e os Sobreviventes)


O presente artigo representará, ao leitor, através de breves reflexões baseadas nas novas vertentes, movimentos e idéias do século XX – além de determinados coeficientes, infelizmente, políticos – o entender do o que aconteceu com a Literatura Brasileira. Há sobreviventes do cenário caótico – literariamente falando – e que, não obstante, por fatores que contradizem a própria estrutura daquilo que se compreendem como a produção literária, tais escritores muitas vezes são esquecidos e apagados em nossa história. Lembremos, antes de aprofundarmos a questão central, os bons e persistentes escritores (Diferentemente dos artigos anteriores, não me concentrei em uma cronologia explícita);

Na História da Literatura Brasileira, pudemos perceber que a quantidade do sentimento de crescimento literário foi durante séculos; todos devem ser – e como acredito que fora – catalogado com o devido respeito para com seu contexto, seu foco de interesse e dentro das suas particularidades mais sinceras na construção lírica. Desde os estilos mais gongóricos, pitoresco ou romântico, até parnasiano ou simbolista ao extremo, caracterizam, por excelência, uma linha de evolução (atento-me a este termo que pode parecer ligado a uma corrente positivista; não é o caso) dissemelhante e ao mesmo tempo tênue.

Mas nem sempre a Literatura Brasileira foi autenticamente nacional, assim como o quiseram os românticos, ao aprofundarem o nativismo e o sentimento indianista, e os modernistas com os intuitos de inovações efêmeras em lirismo e imensas em altercações de regras; e quem dirá, nem precisando ser um bom entendedor, de que até mesmo os meios e as finalidades propostas por ambas as vertentes não contiveram respaldos externos, senão as próprias idéias que se afloraram através do Iluminismo e Positivismo europeu?

Basta essa razão para constatar que nem sempre temos de nos contentar com aquilo que nos é apresentado, diante de nossos olhos. É preciso ir além, a fim de enxergar suas origens e seus nexos. Fora o fato de não ser oriundo do Brasil, o autor que mais apresentou esses fatores, demonstrando as vertentes, ao menos um pouco de suas ligações internas e externas para com os aspectos e idéias filosóficas, além de evidenciá-las em um traçado temporal e histórico impecável, foi ninguém menos do que Otto Maria Carpeaux, em sua obra monumental intitulada “História da Literatura Ocidental”. Publicada em 1947, no Brasil, contendo hoje ao todo 8 (oito) volumes, é nela que Otto manifestou todo o seu conhecimento histórico, e cultura filosófica, realizando breves ligações com a Literatura.

Essa obra, em específica, realiza um traçado desde os tempos Helenísticos da História, pretendendo relacioná-los no que tange as literaturas contemporâneas do autor. A lista de referências é de quantidade absurda; mas isso se dá pelo interesse vocacional e sincero que Carpeaux tinha para com essa obra, portanto, não foram – como alguns outros escritores mais medíocres – meras citações, relações e referências vagas, no intuito de encher a obra. Nesse ponto Carpeaux consegue efetuar uma unidade de pensamento sobre cada autor e vertente sem nenhum resquício de pernosticismo. Sem mencionar, também, os breves estudos bibliográficos contidos – e que posteriormente seriam aprofundados, tornando-se livros separados – Carpeaux ainda procede, através delas, com estudos a respeito de História da Música, roteiros para programas radiofônicos e até mesmo roteiros cinematográficos.

Em importantes trechos da obra têm-se informações muito profundas, mas, o que se torna interessante quando relacionadoao Brasil é que Carpeaux entendia de que ele deveria valorizar a cultura Nacional que o recebeu; isto é, também, Otto Maria Carpeaux não foi brasileiro, mas tornou-se a partir do momento em que efetuou colaborações tão importantes para a sociedade brasileira (“Sociedade Brasileira” no sentido mais lato possível; seja de Estudos ou não). Podemos dizer que apenas’ com a magnífica obra História da Literatura Ocidental, sendo publicada inicialmente no Brasil, já nos concede uma honra nacional inimaginável – isso sem enunciar todos os estudos e obras realizadas unicamente a partir da literatura brasileira. No entanto, a grandeza de Carpeaux foi desprezada e jogada para segundo plano por praticamente toda a sua vida; ora desprezado, ora amedrontado para com as situações políticas.

Durante meados do Século XX, o mundo, e em especial a Europa, se viu diante de conflitos armados e políticos profundos que evidenciaram, por muito tempo, apenas seu futuro incerto. Carpeaux estivera no meio disso. Assumidamente Católico – depois de abandonar o Judaísmo – se deparou com dois grandes problemas em torno de 1930 e 1940: Comunismo Soviético e a Alemanha Nazista. Por essa razão, mais do que suficiente, junto com a esposa vieram para o Brasil em 1939, alterando seu nomeno mesmo mês em que se estourava a Segunda Guerra Mundial na Europa para que não fosse encontrado; instalaram-se, depois de desembarcarem no Paraná, em São Paulo.

A vida no Brasil não foi nada fácil. Logo após de vender boa parte de seus pertences (livros, obras de arte) para conseguir sobreviver, teve de se submeter à ideologia comunista – ao menos em sua aparência intelectual e moral – para que não perdesse o emprego que havia conquistado; quanto a isso, Carlos Heitor, muito próximo ao Carpeaux, dizia que ele, apesar de ter de se entregar as idéias comunistas – como, por exemplo, ter que mentir a respeito de ser contra única e exclusivamente aos Nazistas quando, na verdade, o era também dos Soviéticos – ainda “tinha coração católico [...] rezava escondido dos esquerdistas”. Em palavras do Filósofo Brasileiro Olavo de Carvalho, até Mauro Ventura, através de uma pesquisa na Áustria, confirmou alguns desses aspectos, evidenciando de que era necessário entender de que Carpeaux, na verdade, tratava-se de um Ultra-Conservador.

                   “O fim da vida do Carpeaux foi muito melancólico porque depois de muitos anos dessa coisa, depois do golpe de 64 que foi quando ele caiu na dependência do Partido (comunista; ênfase do autor), ele foi decaindo intelectualmente de uma maneira extraordinária. Você vê que os artigos dele vão ficando cada vez mais e mais insignificantes [...] Franklin de Oliveira, dizia que no leito de morte, Carpeaux chorava dizendo: joguei minha vida fora... é claro que não jogou. O que ele fez, o que tinha feito, é mais do que suficiente para justificar dez vidas, não uma [...] (Olavo de Carvalho, 2014).

Foi, durante muito tempo, esquecido nos livros de História da Literatura brasileira, sendo um homem que contribuiu tanto para a cultura nacional. Foi Otto Maria Carpeaux, um dos primeiros Brasileiros (e Não-Brasileiros) que sofreu, a partir das chulas aspirações e dicotomias políticas, o choque da realidade que ali se instaurava.

Dos sobreviventes ainda podemos dizer de que existe, no nosso século (XXI), escritores como ninguém menos do que Rodrigo Gurgel – que também é ensaísta e crítico literário. Em diversos relatos importantes através do novo meio de comunicação, a Internet, Gurgel passou a evidenciar diversas problemáticas da Literatura atual, juntamente com o filósofo Olavo de Carvalho.

Cito Gurgel como um dos sobreviventes, sem fazer a devida alusão para com outros contribuintes para o “re-engrandecimento” da literatura, por critérios de documentais e até temporais. Mas há de ser necessário – e muito bem informativo para o leitor – ter ciência dos demais escritores (lembrando-vos de que não necessita ser de nacionalidade Brasileira). Carlos Nadalin, Paulo Briguet, Yuri Vieira e Érico Nogueira, por exemplo, participaram – juntamente com Rodrigo Gurgel – no segundo grande encontro com Olavo de Carvalho, na Virgínia, Estados Unidos, já em 2015. No encontro – que está devidamente publicado na internet – podemos perceber de que, tais nomes e indivíduos que ali estavam, buscaram compreender os nexos problemáticos da literatura brasileira, a fim de almejar um realce básico para com a situação literária atual. Os quatro temas discutidos foram: “1) Descrição geral e história da deterioração da cultura brasileira, identificando os principais agentes e promotores da ignorância; 2) Transformações sofridas no idioma. Os métodos de alfabetização e de ensino, responsáveis pela alienação dos estudantes. A manipulação marxista-leninista nas escolas e universidades; 3) A literatura de hoje e a de meio século atrás. Degradação das inteligências individuais e da moral política; 4) Experiências culturais positivas. A vida inteligente no Brasil de hoje, ainda que exilada pela mídia e por outros atores sociais.

Pós-Modernismo Literário?

Não é normal uma decadência cultural tão profunda como esta a do Brasil. Já catalogamos, mesmo que vagamente, de que o intuito Modernista do século XX foi sem precedentes e até de certa forma sem escrúpulos. As novas “leis e formas” para o produzir lírico, como por exemplo o apelo gramatical fortíssimo sem a necessidade de interpretação interior, sem demora evidenciava-se uma clara dissolução para com a própria Literatura predecessora, fragmentando o nexo para com a realidade, suscitando o intuito único e exclusivo de inovação; há critérios – e até mesmo autores – que apontam a essência dessa conjuntura como apenas um resultado prático das idéias positivistas.

Talvez não haja como negar este aspecto que se mostra tão petulante. E, também, pode-nos servir de arcabouço histórico-literário para conseguirmos compreender de uma maneira mais ampla a situação atual. Não seria a idéia positivista a mesma que pretende ignorar e/ou excluir até mesmo os fundamentos do passado? Não seria, também, o intuito da República? Se compreendermos de que o movimento Modernista esteve intrinsecamente ligado para com os fundamentos e idéias da República, podemos dizer, sem medo de errar, que o Pós-Modernismo vive na literatura contemporânea como efeito de todos esses precedentes; isto é, o pós-modernismo, dentro da literatura pode ser classificado de resgate aos alicerces modernos com a única diferença de aplicação desprendida no que tange as regras anteriores.

Na medida em que estes novos fundamentos literários foram se incluindo, que deixam de lado assuntos elevados e de complexidades reais, por outro lado os assuntos mais levianos e medíocres passam a rodear o cenário da literatura; casos de problemas políticos banais e insignificantes, como “de qual gênero eu sou?”, passaram a ser até mesmo financiados. Da interferência político-ideológica, iniciada já nos fins do Século XX, mostra hoje as suas consequências; escritores de literatura, em sua grande maioria, interessados em escrever apenas sobre elementos partidários e não sobre o que se efetuou na sociedade e qual a relação dela para com o próprio autor. Não tem muito do que se esperar, pois, nem mesmo na linguística, os autores de hoje em dia, escrevem com consciência.

Sejamos sinceros. É infinitamente triste perceber que o nível da nossa literatura nacional, que obteve realces e engrandecimentos em boa parte de sua história, que obteve grandíssimos escritores que fortaleceram a cultura e serviram de respaldo histórico até como figuras excepcionais, esteja indo por água abaixo durante as últimas décadas; este cenário, concomitante para com a quase incapacidade de poder reverter esse processo em curto prazo, ocasiona ainda mais descrença para alguma mudança. No entanto, aos poucos, podemos ver pessoas bem intencionadas, grupos de indivíduos que pretendem restaurar e relembrar os fundamentos de nossa sociedade de estudo. De todo o modo, euacredito que somente o tempo nos mostrará o caminho certo, assim como se tem demonstrado por toda a História.


Por: Lucas Emmanuel Plaça


terça-feira, 17 de janeiro de 2017

História da Literatura Brasileira (1900 - 1950)


A Literatura no início da República; O Pré-Modernismo

Não é preciso expressar diversas vezes o quão instável o período Republicano foi, senão simplesmente pelo seu contexto quase interminável; ao atravessar praticamente um século de sua existência, resplandeceu um grande desfavor para com a literatura, sob os aspectos tão ou mais administrativos e políticos ao atingir a esfera do entusiasmo literário. Claro que as consequências não derivam única e exclusivamente do parâmetro político – assim como vimos em nossa compilação historiográfica nos artigos anteriores, dentro do alto realce inicial sobre a Colônia – entretanto, muitos dos conflitos sociais e econômicos, neste grande período de tempo, afloram-se através das diversas aspirações políticas.

Quem, em sua sã consciência, entenderá de que a Literatura não necessita de uma experiência interior e, como a tal, já inclusa numa esfera coletiva também? Nesse ponto, torna-se evidente de que as esferas externas, ou as categorias meramente coletivas, instigam o espírito dos escritores; sendo mais ou menos audaciosos por meio deste fator pouco nos importa no momento em questão. Basta, na verdade, saber que o contexto republicano influenciou em demasiado, não no sentido político – assim como demonstramos – mas circunstancialmente a literatura brasileira do século XX.

É por essas e outras razões que veremos embates fervorosos dentro da própria literatura. De início, temos basicamente dois grupos que podemos nomeá-los – sem nenhum receio aparente – em suas próprias esferas do desenvolvimento; 1- Conservadores 2- Renovadores; nada que, não obstante, possa nos prejudicar em matéria de documentação e na análise que procederemos.

De todo o modo, é preciso ressaltar que essas circunstâncias tal como resultariam posteriormente no Modernismo, ainda permaneciam parcialmente frustradas, pouco notórias e produtivas; em questão, tratamos do momento Pré-Moderno, cujas vertentes citadas acima não se regulam numa escola ou vertente literária restrita. Usualmente falando, das ambas as tendências, exclui-se de todas as formas a estética moderna propriamente dita que, por sua vez, só há indícios de sua realização décadas posteriores. O que permanece é a tradição parnasiana – em pequena parte romântica – e seus renovadores que almejavam uma espécie de harmonia com a herança interna ao mesmo tempo em que haveria de acrescentá-la algo a mais.

E como o terreno conjuntural derramava sobre a população uma instabilidade socioeconômica e política, nada mais a pensar a respeito da literatura senão sua própria exclamação em tais aspectos. As manifestações vanguardistas anteriores aos anos de 1920 não podem ser compreendidas na limitação da famosa “Semana de Arte Moderna”, de 1922. Foi um processo que, na verdade, alongou-se desde a queda do Império, em 1889, e fortalecido de maneira ininterrupta entre 1902 até 1922.

Cabe destacar aqui, no mínimo, três caraterísticas fundamentais desse processo. Ao longo dos anos, o prestígio já conquistado através do Parnasianismo (Realismo-Naturalismo), a sobrevivência do Simbolismo – agora resgatado por ambas vertentes já mencionadas – e no grande e meticuloso excesso das aspirações nacionalistas, concomitantemente com o pan-americanismo e o latino-americanismo; pode-se perceber um grande subterfúgio dessa última em alguns ideais da República Velha.

É claro que a abolição da escravatura, em tempos, fortaleceu profundamente a ala conservadora e renovadora, mas esta influência está atrelada, também, aos processos de imigração de São Paulo e Rio Grande do Sul que ao longo dos anos novas faces culturais vinham para ficar.

Aquele que merece um destaque especial é o famoso Augusto dos Anjos. Ele, no entanto, não pode ser encarado como parnasiano ou simbolista, pois, em sentido real, foi um herdeiro personalíssimo da poesia científico-filosófica. Sem a menor sombra de dúvida – e como suas mais lembradas obras – o “Eu” e “Monólogo de uma Sombra” são, in latu sensu, onde se pode facilmente encontrar a essência de seu pensamento; entende a condição humana em confronto com a natureza, onde existe a alegria possível – mas nem sempre à mercê do homem. É interessante como Augusto dos Anjos pode, ao mesmo tempo parecer um adepto do parnasianismo, como também parecer o maior oposto:

                    “[...] captada e expressa pelo homem através da arte, consiste essencialmente, na mais alta expressão da dor estética [...]” (Augusto dos Anjos, Poesia e Prosa. São Paulo, Ática, 1977, pp. 57).

A citação acima é, de fato, o ponto de partida de um vocabulário lotado de cientificismo e filosofia, cujo seu pessimismo extremo aflora-se de todas as formas, realizando-o poeticamente.

Também – e como de costume desse estilo – o autor é fortemente inspirado pelas noções de Beaudelaire e Schopenhauer e que, no entanto, não o impediu de se libertar dessas cogitações, para revelar em seus escritos a grande e imensidão ternura, afeto e compaixão para com a fé na justiça e na proteção divina. O aspecto pessimista e corrosivo, somado a depressão às aspirações Modernas, pode ser percebido em um seguinte trecho de “Eu”, cuja representação “muito moderna” não cai bem para seus ombros:

“Aí vem sujo, a coçar chagas plebeias,
                       Trazendo no deserto das idéias
                       O desespero endêmico do inferno,
                       Com a carta hirta, tatuada de fuligens
                       Esse mineiro doido das origens,
                       Que se chama o Filósofo Moderno!”.

Essa obra em específico, foi sua única a respeito de poesia; e como pode se enxergar facilmente, a melancolia se entrelaça junto às palavras que, no fundo, não são lá bem poéticas – como vômito, verme e outras referências aos males e ruindades do mundo.

Do intuito intelectual nessa obra, Augusto dos Anjos parece deixar bem claro suas aspirações, seus sentimentos pessimistas ao mesmo nível de embate com os parnasianos tradicionais em que consegue elevar o chulo e o “podre” para as mais altas produções líricas que uma obra pode conter.

Ainda no mesmo âmbito, temos outro escritor, autônomo por assim dizer. Lembra-se de Machado de Assis, catalogado no século anterior? Ele, junto a outros escritores poéticos e da prosa, favoreceu parcialmente a presença do Modernismo. Sendo um escritor quase que ilimitado em suas opções e interesses de formas, ainda publicando aquelas obras importantes neste século como, por exemplo, “Poesias Completas” (1901), “Esaú e Jacó” e “Memorial de Aires” (1908), pode-se dizer, também, de que a sua trajetória literária sobreviveu e persistiu diante as insistências que viriam em seguida (por esta razão Machado de Assis foi mais aprofundado no artigo anterior), porém, é inegável que suas qualidades influenciaram, posteriormente, ninguém menos do que Carlos Drummond de Andrade, Ciro dos Anjos e Graciliano Ramos.

Tivemos alguns escritores encaixados no pré-modernismo que não pretenderam praticar uma mudança drástica, assim como vimos. No entanto, aquele que mais preservou no sentido mais amplo possível, foi Xavier Marques. Diferentemente dos outros já citados, Xavier não conservou o intuito do parnasianismo. Muito mais além e profundamente o foi ao resgatar e dar continuidade ao Romantismo, o mesmo da década de 1830. Sua persistência notável pode ser encontrada em sua última obra, “As Voltas da Estrada”, publicada em 1930 – em pleno Modernismo.

A obra citada, em si, retrata os antecedentes imediatos da abolição da escravatura, seu contexto, e as consequências que esse ato revelou posteriormente a instauração da República. As situações ali escritas passam, temporalmente, da vida horrenda enquanto escravo, até o momento de obter a possibilidade de ascender-se socialmente. A narrativa dessa obra evoca um fim de século e o começo do seguinte sem ser propriamente um romance histórico.

Sua linguagem, meio que sobrevivente em tantas e diversificadas escolas e movimentos literários, permanecendo intrinsecamente romântica; A narrativa é alimentada pela intriga manifestada na idealização amorosa – quase que principalmente – e a tentativa de relacionar os indivíduos com o ambiente, equacionando os fatos e pessoas com o local.

Outra vertente muito presente nesse período do Pré-Modernismo – mas com narrativas profundamente ligadas ao Modernismo mais adiante – se trata do Simbolismo; dentre eles, o idealismo lírico de Graça Aranha. Ainda no Realismo, temos também numa parte mais crítica ninguém menos do que Monteiro Lobato.

De Graça Aranha, o romance “Canaã” publicada em 1902, e “A Viagem Maravilhosa”, publicado em 1929, destacam-se pelo seu idealismo, seu senso imaginativo perpétuo. Graça Aranha tem uma participação mais profunda e importante dentro desse e noutro período; pois, afinal, é um dos que estará presente nos acontecimentos de 1922, com a Semana da Arte Moderna.

Seu senso reformador foi tão enraizado que, tempos mais tarde, rompeu com a Academia Brasileira de Letras, acusando-a de reacionarismo; porém – e por uma circunstância desgraçada –na maioria de suas contribuições se basearam, justamente, nos pressupostos e estruturas literárias que se deu por divergente. Basta ver, por exemplo, que sua criação literária está intimamente voltada à temática nacionalista, guardando em seu particular desenvolvimento a própria Escola do Recife.

Monteiro Lobato, por outro lado e contendo motivos demasiadamente simples, não obteve nesse momento tanto prestígio e reconhecimento quanto o sr. Graça Aranha no início. Trata-se em sua obra chamada “Urupês” (1918) que seu marco inicial se encontrava. A obra reúne doze contos que se exclamam uma indiferença para com as atitudes governamentais a respeito do sistema agropecuário, concomitante com a destruição e queimadas, atrelado, também à criação de personagens que vivem neste meio como, por exemplo, “Jeca Tatu” como o cabloco – cujas particularidades giram em torno da preguiça e da fadiga.

Não era muito de se esperar que uma publicação desse estilo, ferindo a ideologia nacionalista, envolvida e enraizada com o bovarismo de origem romântica, culminaria sucesso em primeira vista igualmente a outras obras – os Sertões, por exemplo – que resplandeciam visões já ligadas ao modernismo; foi de certa forma, um dos primeiros momentos em que uma geração de escritores, eramengolidos, pouco a pouco, por um movimento literário-histórico.

Ainda no estilo no que tange o desânimo melancólico em ser Brasileiro – no sentido nacional – Lobato forçou, mais uma vez, uma obra chamada “Cidades Mortas”; eis um trecho dessa continuação:

              “A quem em nossa terra percorre tais e tais zonas, vivas outrora, hoje mortas, ou em via disso, tolhidas de insanável caquexia, uma verdade que é um desconsolo ressurte do montão de ruínas: o progresso do Brasil é nômade, e sujeito a paralisias súbitas. Radica-se mal. Conjugado a um grupo de fatores, sempre os mesmos, reflui com eles de uma região para outra. Não emite peão. É um progresso de cigano – vive acampado. Emigra, deixando atrás de si um rastilho de taperas.” (Cidades Mortas, 3. Ed., São Paulo, Monteiro Lobato, 1921. P. 3).

O retrato do Brasil enunciado por Lobato nesse trecho reforça as prescrições realizadas por Machado de Assis quanto ao estado que o advento da República poderia ocasionar. Da diferença desta para a obra predecessora apenas circula na variação de cenário; antes a visão do campo e sua relação para com os indivíduos em sua essência, agora para o núcleo rural e urbano também.

De Monteiro Lobato, no entanto, não pode lembra-lo apenas em suas obras. Muitos de seus pensamentos, quase que indiferentes ao conhecimento de outros escritores, podem muito bem ser encontrados em suas ações, permitindo realizar uma relação de seus sentimentos com seus escritos. Já enquanto trabalhava na Revista do Brasil, fundando a Editora Monteiro Lobato (1920), pode-se dizer de que os veículos de informação e divulgação de idéias e críticas aproximaram-se de, praticamente, todas as tendências e inclinações da época; também sendo conhecido pelas célebres obras de literatura infantil e sem esquecer-se deste seu papel fundamental de sua vida, Lobato apoiou demasiadamente a implantação das Indústrias no Brasil: Fundou, em meados dos anos 30, a Companhia Petróleo do Brasil e liderou a Campanha do Ferro.

Já o célebre escritor de “Os Sertões”, ninguém menos do que Euclides da Cunha, atingiu sua fama por trazer ao espírito moderno a compatibilidade sincrônica de regionalismo na Literatura. Nas próprias palavras de Gilberto Freyre, o critério quase que genial utilizado por Euclides se trata, em sua excepcionalidade, a própria conciliação entre uma espécie de sociologia e geografia; mesmo contendo uma divergência para com bases culturais, a visão literária de Euclides pode ser resumida, sem nenhuma sombra de dúvida, de “imperativa”.

Por essas e outras razões a obra “Os Sertões” procurou adentrar literariamente no espírito brasileiro. Alguns autores e estudiosos brasileiros procuram uma relação dela entre o romance Canaã de Graça Aranha; sobre este fator, este que vos escreve não consegue enxergar nenhuma linha de compará-los, sem cair na usurpação de seus sentidos mais restritos, senão na própria vertente pré-moderna e moderna.

O Modernismo e a Semana de Arte Moderna

Os olhares a respeito do marco inicial do Modernismo normalmente estão direcionados para a Semana de Arte Moderna, enquanto pulam toda uma complexidade de vertentes que podem – e foram – nomeadas desde dentro ao movimento, quanto também em seus dissidentes. Nesse cenário em específico, as repercussões de adeptos e contrapostos sempre surgiam exorbitantemente. Concomitante a essa fisionomia um tanto instável nas passagens das décadas, apresenta-se um novo condicionamento muito mais elevado em critérios de dessemelhança que já não são bem os mesmos que o procederam no período Pré-Moderno.

São em referências de Tristão de Ataíde que evidenciamos uma ampla pluralidade. O mesmo repassou três classes de escritores que resumem, no sentido mais restrito possível, a obscuridade desde o início dos “tempos modernos”; entre eles estão os Passadistas (os que mantinham o espírito do século XIX), Modernos e Independentes (os que mantinham uma posição um tanto aversiva quanto ao Modernismo, Monteiro Lobato, por exemplo); e os Moços (os próprios Modernos) que o autor divide-os em mais quatro classes diferentes: Dinamistas, Primitivista, Nacionalista e Espiritualista. No entanto, o período que se abarca como Modernismo se estende desde 1920 até 1960. Não necessariamente por esse motivo cronológico, mas em todas as décadas nesse espaço de tempo, houve tantas renovações e mudanças, que resumir os Modernos a uma escola e/ou vertente específica é danar toda a produção literária e pensamentos realizados de um aspecto tão complexo.

Sabemos, no entanto, de que o espírito Moderno, através da Semana De Arte Moderna proclamada em 1922, cujo interesse e atenção principal regida pelos mesmos foram meramente a “revisão Crítica de toda uma experiência anterior, em termos brasileiros, voltada para a tendência que nos tem dominado, a saber, a do mimetismo com relação aos valores europeus”. Por mais que enunciem que o intuito do Modernismo da primeira geração foi “descobrir novas formas” – o que não é verdade – os fatos evidenciam que muito pouco fez em acrescentar; na verdade, uma espécie de “redescobrimento”, tanto histórico quanto do próprio estilo brasileiro propriamente dito. Como podemos ver, há uma forte relação para com o espírito “renovador” republicano; dar uma nova identidade ao Brasil tem certa semelhança com redescobrir e renovar estilos.

Os primeiros focos e proclamações modernistas já haviam começado em 1921, pelas colunas do Jornal do Comércio e do Correio Paulistano. Seu resultado: Semana de 22. A criação de “novas revistas mais adaptas aos preceitos modernistas”, como a Klaxon, Terra de Sol (Revista de Arte e Pensamento), etc. surge como ápice de um acontecimento que marcou a arte e a literatura. Entre os dias 11 e 18 de Fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, com a companhia de Mário de Andrade, Oswald de Andrade, Plínio Salgado, Di Cavalcanti e muitos outros, instaurou-se, por fim, aquilo que se compreende como Modernismo. No momento das aberturas e exposições, muitas pessoas ficaram chocadas e não apreciaram em demasiado os “novos critérios”.

A renovação da linguagem e da quase extirpação de valores do século XIX por dentro da Literatura ocasionaram reações mais conservadoras em boa parte da população e mídia (por essa razão surgiram revistas citadas anteriormente, no objetivo de realizar uma balança de idéias) e alguns escritores.

Monteiro Lobato já havia, novamente, denotado agora em uma obra publicada no dia 20 de Dezembro de 1917, chamada “Paranoia ou Mistificação” que inclui críticas fortíssimas sob a exposição de pintura de Anita Malfatti – exposição esta que também estava inclusa na Semana de 22.

Destarte, a conturbação não cessou vaga e facilmente. Em vários escritos, há respostas e justificações a perspectiva moderna que, por uma compreensão muito simples, não foi tão significativa de início. Temos aqui um trecho de uma das cartas que Mário de Andrade enviou para seu grande amigo Manuel Bandeira. Mário deixa por ora muito evidente as suas convicções através de um importante depoimento sobre seus procedimentos e intenções que vinha assumindo:

                   [...] “Forcei a nota prá chamar a atenção sobre o problema, sempre com a intenção de no futuro, quando o problema estivesse bem em marcha, voltar a uma menos ofensiva verdade, e a uma lógica liberdade de mim. Nem meu trabalho resultou dessocializante, nem voltei prá trás. Pus um problema em evidência tão ferinte que toda a gente o encarou, dei uma liberdade nova (ajudei a dar, e com incontestável maior generosidade), de que toda a gente que importava se aproveitou” [...].

O leitor deve perceber o estilo moderno na própria carta; expressões como “prá”, “dessocializante”, eram motivos mais do que suficientes para uma crítica midiática, de outros escritores ainda ligados aos aspectos românticos ou parnasianos, e até mesmo da população em geral. No entanto, a respeito disso, Mário também se defende:

                   [...] “Eu não tenho a mais mínima pretensão de criar uma língua. Creio até que das minhas maluquices nenhuma não se estriba sobre o fato não escrito antes. Às vezes mesmo me assombro como tudo já foi dito. Eu me fiz instrumento duma coisa natural, e só. [...] Não sei qual será num século ou 50 a língua brasileira. Sou um fenômeno individual, e sempre falei, você sabe, que trazia a minha contribuição pessoal para um fenômeno que só pode ser coletivíssimo. A principal função minha não está nas minhas ‘invenções’ pois que sei lealmente quanto elas não são minhas, mas no trazer o problema, pros que me lêem, como uma realidade permanente”.

Na Poesia, Mário de Andrade, no entanto, foi dos modernos quem mais se preocupou com formulações teóricas. O "prefácio interessantíssimo" é o prefácio de si ao seu próprio livro “Pauliceia Desvairada”. Ali, Mário reflete-se em um ponto interessante, dizendo que o “passado é lição para meditar, não para reproduzir”, dando a fundamentação básica para o Modernismo que, portanto, era a renovação que reconhecia única e exclusivamente a continuidade, admitindo que “todos os assuntos são vitais”.

São com essas fundamentações que se criaram leis proclamadas pela estética da nova poesia. As mais conhecidas são:

1. Verso Livre: Fundamentação do Ritmo, sem possuir Métrica.
2. Rima Livre: Rima completamente variada, fora de lugar, imprevista e muitas vezes ocorrendo no interior do verso.
3. Vitória do Dicionário: Surge a defesa infame da Gramática como suficientemente prática para “o bom lirismo”, ao mesmo tempo em que se contesta a “construção fraseológica”, com preferência por outra “muito mais larga, muito mais energética, sugestiva, rápida e simples”.
4. Substituição da Ordem Intelectual pela Ordem Subconsciente: Associação de imagens para com a poesia.

Essas regras instituídas neste período alavancam uma personalidade temporal muito recorrente para com as atualidades literárias. (Convidarei o leitor, no próximo artigo, a realizar uma breve reflexão a respeito das “novas leis” esteticamente aceitáveis dentro da literatura).

De todas as obras de Mário de Andrade se destacam algumas características muito notáveis; por exemplo, as propostas poéticas do momento de debate e renovação, a criação em compromisso para com a brasilidade e com seu destino pessoal. A obra “A Escrava que Não É Isaura” projetou-se, por exemplo, estritamente dessa forma.

Outro escritor muito forte dessa época – e que muitas influências ainda permanecem – foi ninguém menos do que Manuel Bandeira. Nascido 19 de Abril de 1886, em Recife, Pernambuco, foi Poeta, crítico da arte e da literatura, professor, tradutor e ainda realizou uma obra monumental “Noções de História da Literatura” (inclusive muito utilizada para a realização destes artigos).

Seus primeiros livros, “A Cinza das Horas”, publicado em 1917, “Carnaval” em 1919 (representando um de seus mais célebres livros), caracterizam a preparação vinda de concentrações e pressupostos parnasianos e simbolistas, posteriormente associado ao seu processo de modernização. A obra “Libertinagem”, publicada em 1930, por exemplo, descreve-se no momento exato de sua atuação fundamental no modernismo. É nessa obra que um cultivo poético irônico procura predominar-se sob os antagonistas dos reformadores; a “liberdade de escrita”, proclamada precedentemente na Semana de 22 e reforçada pelos preceitos e o novo formalismo de Mário de Andrade, reflete como inspiração para o nome da obra. Daí, “Libertinagem”.

Na construção poética, seu lirismo, por assim dizer, percebe-se uma evolução meramente gramatical, e um aprofundamento ao sensualismo e o erótico, proporcionando o ar libertino propriamente dito. Com relação às tradições literárias, o poeta desempenha demasiadas críticas. Não é preciso repetir que a quantidade de criticismo literário nesse período foi exorbitante. Todos atacando todos, sem precedentes. Mas, com Manuel Bandeira é preciso ressaltar uma fisionomia, cuja conquista naquele tempo quase se perdia (exceto com alguns notáveis críticos, como, por exemplo, Monteiro Lobato do qual falamos tanto). Trata-se da honestidade; apesar de deixar-se levar pelas influências do momento, tão cativantes aos olhos contemporâneos da época, procedeu com muita clarividência para consigo mesmo em virtude de analisar obras e vertentes dissidentes.

Algo deste cenário criticista do autor Manuel Bandeira está intimamente relacionado com as publicações dos livros subsequentes; um deles, publicado em 1936, chamado “Estrela da Manhã”, “Lira dos Cinquent’anos” em 1944, “Belo Belo” em 1948 e “Opus 10” publicado já em meados da década de 50. Mas, não haverá somente critérios modernistas em seus escritos finais. De alguma forma, a temática do “fundamento pessoal”, inerente à necessidade lírica, permaneceu e floresceu nestas últimas obras. Em “O último Poema”, podemos perceber uma relação que o próprio tinha da poesia para com o seu íntimo:

                   “Assim eu queria o meu último poema
                   Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
                   Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
                   Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
                   A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
                   A paixão dos suicidas que se matam sem explicação”. (Poesias, Manuel Bandeira, ed. Cit., p 222).

A melancolia age proporcionalmente para com o Modernismo ao mesmo tempo em que se relaciona com a significação conjuntural que o aborda; com este trecho pode-se perceber que existe nesse, grandes diferenças, comparando-o com poesias dos séculos anteriores. Agora o Verso Livre e dentre as outras novas “leis da literatura moderna” entravam em vigor.

Oswald de Andrade foi um dos que exemplificaram a experiência poética, plenamente vanguardista, baseado nesses novos critérios. Em “Pau-Brasil”, uma de suas principais obras, percebe-se “a busca nas origens, através de fontes escritas” formulando, liricamente, e através de um senso de humor implícito nos cronistas predecessores, o traço interno e externo do perfil Brasileiro. Na obra, Oswald mostra-se demasiadamente contra os preceitos europeus, ainda agindo ironicamente para com os bovaristas do século XIX que também se voltavam para os aspectos “primitivistas” e colonialistas, que o próprio adapta a visão de brasilidade.

A respeito da obra, em uma entrevista datada no dia 26/06/1949, confrontaria o primitivismo pau-brasil com o primitivismo europeu da época. Para que fique mais claro, reservei um trecho importante de sua fala:

                   “BlaiseCendrars teve influência no surgimento do Pau-Brasil. Em 1925 eu trouxe impresso de Paris, com prefácio de Paulo Prado e ilustrações de Tarsila, o livro Pau-Brasil, de que decorreu um movimento dentro do nosso Modernismo (primitivismo/ grifo do autor). O primitivismo que na França aparecia como exotismo era para nós, no Brasil, primitivismo mesmo. Pensei, então, em fazer uma poesia de exportação e de importação, baseada em nossa ambiência geografia, histórica e social. Como o pau-brasil foi a primeira riqueza brasileira exportada, denominei o movimento Pau-Brasil. Sua feição estética coincide com o exotismo e o modernismo. 100% de Cendrars, que, de resto, também escreveu coincidentemente poesia Pau-Brasil.”

É com este “cenário Moderno”, com tantas particularidades, diversificações desde dentro do movimento modernista, que deu-se por iniciado um novo critério literário; este que estende-se até os dias atuais concomitante a algumas reformas e novas fisionomias. Houve muitos escritores desse tempo que mereciam seu tempo e lugar, dentro da plenitude do momento, como Murilo Mendes, Carlos Drummond de Andrade, José Vieira e Rubem Braga. No entanto, atento-me aos escritores modernos citados mais acima, de uma forma mais particular e compacta, pois, é em meados do século XX, mais especificadamente entre 1950 e 1960 que teremos de retomá-los como fonte inicial e outros autores modernos; por formas de contraste e comparações não levianas, mas intrinsecamente necessárias para podermos rastrear e pontuar claramente os processos literários do século XXI.


Por - Lucas Emmanuel Plaça.

Bibliografia:
História do Modernismo Brasileiro – Antecedentes da Semana de Arte Moderna, São Paulo, Saraiva, 1958. Mário da Silva Brito/ Capítulo VII – “Ruptura e Auto-conhecimento”/
V. Augusto dos Anjos, Poesia e Prosa, 1977/ 
Fernão Góis, Panorama da Poesia Brasileira – Volume 4 – O simbolismo, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1959/
João do Rio, O momento Literário, Ed/
Cidades Mortas (contos e impressões), 3. Ed., São Paulo, Monteiro Lobato, 1921/ 
José Aderaldo Castello, A Literatura Brasileira. Origens e Unidade, Vol. 1, 2/
Gilberto Freyre, Atualidade de Euclides da Cunha, Rio de Janeiro, ed. Da Casa do Estudante do Brasil, 1941/
Mário de Andrade, Cartas a Manuel Bandeira, Rio de Janeiro, Edições de Ouro, 1979/
Cronologia Geral da Obra de Mário de Andrade, Revista do Instituto de Estudos Brasileiros/ 
Mário de Andrade, A Escrava que Não É Isaura, Ed./ 
Augusto dos Anjos, Eu. Bertrand Brasil Ed 49/
Manuel Bandeira, Noções de História da Literatura, ed. 1949/
Silvio Romero, História da Literatura Brasileira, Vol. 1, 2 e 3/



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